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Arco do Triunfo, de Erich Maria Remarque

por Luís Naves, em 22.08.16

O autor deste romance foi ele próprio refugiado em fuga da Alemanha nazi. Remarque era uma celebridade internacional, autor do clássico A Oeste Nada de Novo. A fama permitiu-lhe fugir para os Estados Unidos e publicar ali este Arco do Triunfo, que garantiu vendas astronómicas e outra adaptação ao cinema: o filme, de 1948, foi interpretado por Ingrid Bergman. O romance, cuja história decorre em 1939, ajuda-nos a ver com outros olhos o tratamento dos refugiados que tentam hoje em dia chegar à Europa: o nosso tempo, com todas as suas limitações, é bem mais generoso do que aquela época brutal.

Arco do Triunfo tem alguma repetição de ideias, há por ali personagens secundárias dispensáveis. Remarque procurou escrever um romance sobre a experiência dos refugiados, mas exagerou na dose da história romântica que atravessa o livro. O autor alemão fora bem mais eficaz numa obra de 1939, Desenraizados, sobre os apátridas que percorriam a Europa em fuga das perseguições raciais e políticas do regime nazi. O anti-semitismo, o oportunismo e a indiferença das populações são ali descritos de forma muito crua. Também serviu para o cinema (nunca vi), com o título So Ends Our Night, de 1942.

Arco do Triunfo tem certa dispersão da intriga, concentrada no amor entre o herói, um médico alemão refugiado em Paris, que usa nome falso, e uma mulher misteriosa cujo suicídio ele impede na cena inicial. Essa paixão ocupa dois terços das páginas, mas resulta em excesso de sentimentalismo e diálogos que insistem no mesmo tom. Provavelmente, Remarque cedeu um pouco ao gosto da época, por isso o romance vale muito mais pelos detalhes, as pequenas histórias dentro da história, os minúsculos golpes de asa que surgem nas reflexões da personagem principal, refugiado não judeu que foi também soldado alemão na Primeira Guerra, tal como aconteceu com o autor.

O melhor vem no fim, numa história secundária (concentrada no terço final) sobre uma vingança. São páginas brutais, no duplo sentido de violência e precisão. Na realidade, trata-se de um homicídio perfeito, executado sem remorsos. A grande literatura está provavelmente ligada à sinceridade de quem escreve, sobretudo quando este, sem querer, nos transmite o mais profundo das suas raivas, dos seus ódios e medos. Por isso, a parte deste romance que mais nos perturba é a que tem menos fantasia: diz respeito ao desespero dos refugiados que se arrastam no limbo legal, à espera da prisão e deportação ou da passagem para um paraíso terrestre inacessível. Poucos deles têm esperança em escapar (as situações de injustiça são ainda mais poderosas em Desenraizados). À medida que se aproxima a guerra com os nazis, os ‘sales étrangers’ transformam-se progressivamente em ‘sales boches’. (‘Mas somos judeus’, diz uma senhora que ainda não compreendeu).

“Nada retoma a forma antiga”, afirma outra personagem, para sublinhar que o passado nunca voltará: os refugiados são enganados nas contas, são roubados e explorados, não podem trabalhar nem podem ter vidas normais. Arranjam biscates, são fantasmas, vendem quadros da família. O médico, por exemplo, é preso quando tenta salvar a vítima de um acidente. E estas não são pessoas de uma cultura estranha, pelo contrário, são europeus privilegiados, podiam ser aceites na sociedade francesa, mas só recebem desprezo. Na sua obra desta fase do exílio, Remarque fala-nos do verniz fino da civilização, da frágil estabilidade de cada existência, de como uma vida confortável e feliz se pode tornar de súbito numa situação precária, infernal, repleta de regras incompreensíveis e de perseguições sem saída. O livro é um triunfo de pequenas histórias de duas linhas: muitas destas observações curtas foram certamente tiradas da realidade, narrando o labirinto sem escapatória dos que caminhavam como cordeiros para o extermínio. 

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publicado às 19:41



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