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Antigamente

por Luís Naves, em 22.04.17

Antigamente, era fácil para um romancista colocar duas personagens a conversar uma com a outra. Os estranhos encontravam-se em viagens longas, por exemplo, de comboio, ou melhor, de navio, forçados ao convívio inevitável numa paisagem calma (o convés, os camarotes ou a estalagem onde se pernoitava), tornando-se credível que alguém ali contasse uma história ou desvendasse a sua intimidade a outro que não voltaria a ver. Na vida contemporânea, não se imagina que dois estranhos conversem numa simples viagem de avião, onde estamos a ser constantemente interrompidos pelos anúncios dos tripulantes, muito menos numa viagem de comboio (essas ficaram tão curtas) ou num aeroporto, com a confusão impessoal destes lugares e a desconfiança obrigatória. Sim, passamos o tempo todo naquelas barreiras de segurança, num stress horrível; seria estranho e suspeito que dois desconhecidos conversassem longamente, o suficiente para se contar uma história: desculpe, tenho de atender este telefonema, o meu voo já está a ser anunciado, não tenho tempo a perder, o portão é longe, adeuzinho, tive prazer em conhecê-lo, sei que jamais o verei na minha vida e podia contar-lhe tudo o que preciso de desabafar, mas nem sequer fixei o nome do país de onde vem, ainda bem que conversámos estes dez minutinhos, a ponto de já não me lembrar de alguma coisa que tenha dito, afinal, não se diz muito nos primeiros dez minutos de uma conversa, não é assim? Como colocar dois desconhecidos a contar histórias um ao outro? Dois bêbados num bar de uma cidade exótica? Duas pessoas à espera do metropolitano, na plataforma cheia de outros passageiros exasperados com as dificuldades na circulação? Dois estranhos que acabaram de assistir à mesma extraordinária partida de xadrez? Uma mulher que tenta ganhar tempo, encantando um serial killer com histórias fabulosas?

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publicado às 15:53



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