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Acordo nuclear

por Luís Naves, em 23.07.15

Não deve ser minimizada a importância política do acordo nuclear entre Irão e um grupo de potências liderado pelos EUA. Teerão vê suavizadas as sanções económicas internacionais e espera taxas de crescimento da ordem de 8%; americanos, europeus e russos fiscalizam as ambições nucleares persas, atrasando o desenvolvimento de uma eventual bomba iraniana pelo menos por uma década; os chineses terão mais acesso a petróleo e gás natural; os preços destas matérias-primas serão baixos durante mais tempo; e o Irão poderá acelerar a sua lenta, mas já visível, transição para a modernidade.

Como bem assinala Pedro Picoito neste texto, o acordo nuclear resulta da circunstância de todos os intervenientes combaterem o Estado Islâmico, que ocupa cada vez mais o vácuo deixado pelo colapso do regime de Saddam Hussein no Iraque e da guerra civil na Síria, dois assuntos que Washington geriu de forma desastrosa. Irão e EUA são também aliados informais no Afeganistão e, vendo de forma mais profunda, os americanos não podem, no que respeita ao Médio Oriente, colocar todos os seus ovos na frágil cesta saudita, cuja monarquia viverá previsivelmente grandes dificuldades nas próximas sucessões reais.

Washington tem de garantir a segurança dos israelitas, mas não há verdadeiras razões de fundo, ideológicas ou outras, para os persas se manterem uma ameaça existencial para Israel, cujo apoio secreto a Teerão durante a guerra irano-iraquiana foi aliás decisivo para evitar a vitória militar do falecido ditador do Iraque. Do ponto de vista dos interesses económicos, o Irão é bem mais promissor que a Arábia Saudita, pois mantém elevado grau de diversificação e tem uma elite sofisticada, enquanto o reino saudita, inteiramente suportado pelo petróleo, enfrenta um horizonte mais incerto de esgotamento a prazo da matéria-prima em que se baseia o seu poder. Onde havia três potências regionais em equilíbrio relativo, há agora duas, Irão e Arábia Saudita, que representam a grande fractura do mundo muçulmano entre xiitas e sunitas, mas também entre árabes e persas. À boa maneira ocidental, a estratégia da superpotência de manter na linha as alianças que possui na região implica aproximações pragmáticas aos rivais dos amigos.

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publicado às 11:23



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