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A 'reportagem universal'

por Luís Naves, em 03.12.14

Excelente crónica de António Guerreiro, autor de invulgar cultura e lucidez. O cronista, que tem feito uma análise sistemática do populismo cultural e respectivo triunfo, comenta a questão da leitura de livros novos suscitada por Pacheco Pereira e que critiquei mais abaixo. Gosto do argumento central de ser antiga e recorrente a tese do declínio das ideias e do esgotamento do mundo, mas interessou-me ainda mais esta opinião final, que não resisto a citar por completo: escreve António Guerreiro que “o jornalismo passou a estar em todo o lado, com a sua linguagem servil, pré-fabricada, imediata. Neste sentido, a maior parte da produção literária é da ordem do jornalismo, limita-se a amplificar a ‘reportagem universal’”. Tenho pensado neste excerto e espero que o autor desenvolva, explicando o que é essa ‘reportagem universal‘ e como pode a ideia ser compatível com a invasão da literatura pelas fantasias mais delirantes, sobretudo de sexo e violência. Os livros actuais são muitas vezes produtos efémeros e pré-fabricados, com pensamento superficial e condescendente, mas isso é declínio ou continuidade? Afinal, sempre aconteceu assim, não há só obras-primas, mas também livros banais ou com menor impacto. Se olharmos para o passado, talvez a literatura tenha de facto tentado nos últimos duzentos anos construir uma ‘reportagem universal’. Sendo o texto jornalístico inteiramente verídico e o de ficção inteiramente falso, o segundo apenas precisa de tempo para deixar de ser mentira. E o primeiro, se sobreviver, tanto faz se é verdade ou não: os protagonistas dos factos estão mortos e entretanto tornaram-se idênticos a qualquer personagem inventada.

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publicado às 18:00



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