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A propósito de Casanova

por Luís Naves, em 06.03.15

É sempre difícil definir o que mais nos atrai num livro de ficção. Pode ser a linguagem invulgar, o ritmo, uma personagem ambígua, a estrutura invisível, a qualidade poética das frases que se encontram ao longo do texto, pode ser a própria história, a imaginação ou a forma como é explorada a ideia central, mas quase sempre se torna difícil identificar a fonte do mistério: o que faz um livro ser mesmo bom? Acho que já escrevi isto antes: correndo o risco de me repetir, sinto que um bom livro contém a autenticidade do autor; significa que estão ali as tripas e o coração dele, está a voz verdadeira, que só podia ser a sua; estão os defeitos à mostra, as limitações e as paranóias, certa exposição e até nudez, que quase nunca é agradável.

Quando sentimos que um livro não é artificial ou forçado, que não é barroco ou decorativo, então estaremos provavelmente perante certa qualidade da forma, numa dose da natureza tal como ela existe, na visão do mundo própria daquela pessoa única, mesmo que o texto contenha todas as limitações do indivíduo em causa, mesmo que as suas fraquezas não nos interessem por aí além. O que menos gosto num livro é o excesso de artifício, interpretado como a máscara com que o autor se disfarça, a roupa que não lhe cai bem, a pose que coloca para se fazer passar por outro, usando até palavras que não são as dele.

Escrevo isto a propósito de Giacomo Casanova: não sei se as suas memórias são fidedignas ou se traduzem sempre acontecimentos reais, mas os factos pouco importam. O escritor escreveu muitos anos depois de viver os episódios, portanto, eles não correspondem à verdade do que se passou e estamos no território da memória sincera, que é sempre meio imaginada, com as lacunas do esquecimento preenchidas pela fonte inesgotável da fantasia. Se não podemos afirmar que seja tudo verdade, sabemos sem dúvida que é autêntico. Isso transforma a prosa, dá-lhe simplicidade e o fluxo visual que transporta o leitor para o universo do escritor, para aquele estado leve e vagamente transcendente da leitura que já perdeu a consciência de ser leitura.

Casanova tem observações próprias de um sábio, pois quando escreve sobre a sua juventude é na realidade um velho que contempla o passado e medita sobre ele. O escritor é a sua própria personagem, mas entretanto passaram décadas, já não é a mesma pessoa. E se ninguém pode recordar com exactidão aquilo que viveu, então as memórias são sobretudo ficção, e está lá tudo. A propósito de Casanova? Este texto podia ser a propósito de Fernão Mendes Pinto.

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publicado às 19:38



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