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A História de um Sonho, de Arthur Schnitzler

por Luís Naves, em 31.07.16

A literatura portuguesa nunca valorizou a novela curta, embora haja obras-primas neste formato (Davam Grandes Passeios ao Domingo, de José Régio, ou Saudades para a Dona Genciana, de José Rodrigues Miguéis, para citar dois brilhantes exemplos). A novela tende a desaparecer, já que publicar textos de 120 mil a 200 mil caracteres não é fácil, mesmo quando estamos a falar de autores consagrados. Nas literaturas centro-europeias, o formato tem largas tradições.

O tema das fantasias sexuais era ousado para o tempo da escrita, anos 20. Há neste texto sentido de ritmo, estrutura por cenas, simplicidade de estilo, a eficácia de se prescindir de digressões narrativas: o autor vai depressa ao essencial, seja nas descrições de ambiente ou na definição das personagens. Esta poupança é típica dos autores austro-húngaros. A novela de Schnitzler serviu de base para o filme De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick, que não consegue captar totalmente a ideia da decadência que encontramos na novela. Falta o tom expressionista original, que nos leva pelos labirintos do sexo e ao abismo do fascínio pela morte. Tom Cruise não é muito credível no papel do médico e no texto de Schnitzler existe uma espécie de ruído de fundo que nos remete para as zonas secretas da sociedade.

A busca da personagem principal, o médico Fridolin (frívolo, libertado?), ocorre num contexto de revelação de algo que se encontrava oculto, no interior do próprio conforto burguês de um casamento. A novela é um falso policial e decorre na Viena dos anos 20 do século passado, mas a ideia parece quase contemporânea, de que existe uma realidade paralela, um mundo de elites com regras próprias. Ali, a entrada é proibida, mas será verdadeira a sugestão causada por factos de interpretação ambígua? O perigo é autêntico? A mulher morta foi a mesma que salvou o herói? A curiosidade e a fantasia resultam na dúvida sobre o que aconteceu e, sobretudo, na culpa sobre o que possa ter acontecido. A mulher de Fridolin, cuja confissão de um pecado imaginário desencadeou a crise, explica no final: "agora, estamos plenamente acordados". Naquele momento termina o devaneio e recomeça a fatia maior da realidade. "Nenhum sonho é inteiramente sonho", o que pode significar que somos responsáveis pelo que fazemos, mesmo que tudo tenha a maior inocência.

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publicado às 17:02



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