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O que não queremos

por Luís Naves, em 16.08.17

O que não queremos é que penses profundamente sobre a sociedade em que vives, sobre as questões autênticas das pessoas que conheces ou sobre os problemas do teu tempo. Escreve antes sobre o umbigo, de forma suave e doce; faz explorações de linguagem que dentro de dez anos estarão obsoletas, mas que agora são giras; procura obscurecer as tuas ideias e não levantes problemas concretos; dificulta a leitura, para pareceres poeta; dispara em todas as direcções e sem foco, para que digam que escreveste um fresco de largas dimensões; evita incluir personagens próximas da realidade ou do que conheces; e nada de excessos de imaginação; sê filosófico, mas sem filosofia; sobretudo não sejas legível, pois isso não parece sofisticado paras  leitores ávidos de complexidade; enfim, segue as tendências da moda, já que é isso que vende.

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publicado às 23:36

A opção

por Luís Naves, em 15.08.17

Aqui, na Hungria, muitos pensionistas vivem mal, com problemas de saúde e pobreza. Por raiva genuína ou dose de nostalgia, parte desta camada vota contra o governo conservador, que por sua vez terá o voto entusiástico da classe média, a que mais tem beneficiado com a melhoria da situação económica. No final, se não houver até lá um escândalo inesperado, as eleições de Abril estão definidas: será uma opção entre um governo que melhorou a situação da população e a oposição de esquerda, por enquanto dividida, onde se inclui o autor da bancarrota e os descendentes do regime totalitário; ao centro, há uns teóricos liberais que não se conseguem juntar numa simples coligação e, depois temos a extrema-direita, uma das mais tóxicas da Europa. Alguém se pode admirar se Viktor Orbán vencer as eleições de 2018? Se houvesse um verdadeiro problema de democracia, como dizem certos analistas, juntavam-se os partidos todos numa frente cívica para salvar o regime, mas não há sinais de que isto possa acontecer, pelo contrário, demonstrando que cada um está a lutar apenas pelos interesses partidários de curto prazo.

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publicado às 23:29

Difícil de explicar

por Luís Naves, em 13.08.17

Muitas pessoas que falam de cor sobre a Europa Central não compreendem elementos fundamentais destas sociedades. Em primeiro lugar, que a geração mais influente (entre 50 e 60 anos) atravessou toda a transição e interpreta os últimos 25 anos como um período em que as ambições da mudança foram parcialmente traídas; o Ocidente é em grande parte o culpado da sua desilusão e descontentamento. A transição beneficiou gente com boas ligações ao antigo regime e prejudicou muitos dos intelectuais que tinham sonhado com a liberdade e lutado por ela. O que os nossos observadores de bancada também não compreendem é que existe hoje nestes países um evidente conflito de gerações entre os mais velhos, que têm uma memória terrível dos anos do comunismo, e os mais novos, que querem seguir em frente. Esta memória de um regime totalitário não se apaga por magia. A Hungria, em particular, viveu os últimos 250 anos a lutar pela sua identidade, no âmbito de conflitos por vezes existenciais. A sua política segue hoje esta matriz, vive entre compromisso e resistência. O compromisso com a Europa envolve riscos de perda de identidade e a resistência pode levar à criação de uma bolha nacionalista. Não deve ser fácil explicar isto a um luxemburguês ou a um belga.

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publicado às 23:26

Outono

por Luís Naves, em 10.08.17

Chamemos-lhe Outono. Tenho 56 anos, com entradas no cabelo e um ventre substancial. Ao envelhecer, não sinto qualquer tipo de sabedoria, apenas um cepticismo algo cínico, e começo a esquecer-me de muitas coisas importantes, de frases de amigos, de pequenas histórias lidas algures, de paisagens ou ambientes. Anteontem, numa livraria, aqui em Szeged, vi que estavam a publicar os diários de Sándor Márai e julgo que aquilo começa em 46 ou 47, no Outono da vida dele, numa altura em que assistiu aos terríveis acontecimentos do pós-guerra; os diários incluem volumes grossos no exílio do escritor e, se bem percebi, Márai escrevia para a gaveta, para não se esquecer, não propriamente para leitores, que os perdera para sempre. E tem um certo horror e um pequeno conforto, isto de escrever para a gaveta. Ao folhear os volumes encontrei uma entrada de 61 com as notícias do dia sobre o paquete Santa Maria e os quixotes portugueses que lutavam pela liberdade. Aliás, o navio foi baptizado Santa Liberdade pelos rebeldes.

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publicado às 23:18

Uns com bilhete e os outros...

por Luís Naves, em 11.07.17

Foi na grande crise que começou a queda lenta em que vivemos. Chamem-lhe essa espécie de fim do mundo, quando começámos a perceber que estávamos sufocados e presos à servidão, enquanto crescia o fosso entre os que tinham direito a bilhete e aqueles que não tinham esse direito, como observou o intelectual húngaro Támas Gaspár Miklós, num texto que escreveu sobre a crise migratória, inspirado naquilo que vira numa gare de comboios paralisada, apinhada de refugiados e de passageiros sem transporte, uns mostrando o bilhete, os outros de mão vazia, mas todos a meio da viagem e aparentemente sem destino. O nosso tempo estabeleceu uma divisão entre os que beneficiam das liberdades e os que não lhes têm acesso; entre os que vivem na abundância crescente e aqueles que se afundam na estagnação; entre os que passam fronteiras e os que ficam à porta; entre os que são escutados e os outros, cuja voz é ignorada, com desprezo ou indiferença. A liberdade, a saúde, a justiça e o conhecimento são mais desiguais do que eram. O mundo radicaliza-se. Os mais fortes triunfaram sobre os fracos e as palavras passaram a ter significados restritos, que impedem as discussões. Cresce a intolerância e as discussões são submetidas a um duplo critério que não permite compromissos.

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publicado às 19:01

Memórias, de Brandão

por Luís Naves, em 05.07.17

Entre leituras caóticas de Rodrigues Miguéis, Aquilino Ribeiro e Mário Vargas Llosa, alguns excertos das Memórias, de Raul Brandão, livro espantoso que a Quetzal se atreveu a publicar num único volume. Conhecia a primeira parte, mas não os dois segmentos seguintes. Há por ali reminiscências pessoais, sem autobiografia, pequenas histórias retiradas de conversas, um bocadinho de má-língua, recortes da imprensa, textos de poesia pura, crónica, observações políticas, comentário, um pouco de tudo, enfim, e a leitura é uma delícia contínua. Não sei se já li o suficiente para compreender o livro, mas ocorreu-me que, se na época de Raul Brandão houvesse blogues, o escritor teria utilizado o meio. Outra ideia ainda não está sedimentada, mas muitos textos revelam excertos de conversas e, em muitos casos, revela-se ali a escassa lucidez das elites portuguesas (os rumores que os cavalheiros iam transmitindo fazem lembrar as conversas do moderno facebook). Não sei se não estaremos a viver um período parecido com alguns dos piores momentos da Primeira República, pois também agora são os exaltados que se fazem ouvir. É também claro que não se encontram reflexões sobre grandes acontecimentos externos; isso, não sei explicar, mas o conhecimento do mundo talvez seja uma mania contemporânea; damos grande atenção à espuma dos eventos estrangeiros, isso vê-se, por exemplo, na obsessão com os fait divers de Trump, geralmente truncados e balofos. No fundo, continuamos provincianos, como no primeiro terço do século passado. Mas isto já foi uma digressão a mais: leiam as Memórias de Raul Brandão, um diário onde se mistura a crónica; na literatura portuguesa não há muitos exemplos do género, pelo menos com esta qualidade.

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publicado às 19:06

Dias de luto

por Luís Naves, em 02.07.17

A extraordinária hipocrisia da classe política portuguesa a que assistimos por este dias de luto não é muito diferente da profunda estupidez de uma elite mediática instalada no nevoeiro da sua ilusão de poder. Vivem ambos na mesma bolha que se afasta irremediavelmente do país, como se flutuasse numa jangada.

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publicado às 18:55

Sempre o mesmo

por Luís Naves, em 01.07.17

Há uma irrealidade em tudo isto: a negação das alterações climáticas e de uma floresta que está errada há 50 anos, desadaptada ao clima em mudança e à desertificação humana dos territórios. E em cada ano, o poder político comete os mesmos erros, refém de interesses obscuros ou na simples armadilha da estupidez humana, não sei ao certo, mas batemos com a cabeça na parede sempre da mesma forma, ignorando os conhecimentos da ciência, recusando as verdadeiras reformas da floresta, esquecendo o colapso evidente de um mundo rural que simplesmente já não existe. Desta vez, os erros foram acentuados por leis inúteis, pelos governantes mais preocupados com a imagem e ainda pela necessidade de praticar em larga escala as chamadas cativações orçamentais, única forma de emendar as ilusões que nos venderam de que a austeridade acabara. É assim em Portugal: estamos sempre a marrar com a cabeça nos mesmos problemas e as pessoas lúcidas são postas de lado pelos grandes medíocres.

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publicado às 18:44

Fomos compreendendo a pouco e pouco

por Luís Naves, em 27.06.17

Na grande crise houve vencedores e vencidos, como acontece em todos os grandes acontecimentos. Nos últimos cem anos deram-se quatro grandes transformações e, em três delas, toda a gente percebeu que o mundo tinha mudado de um dia para o outro. Foi assim no final da Primeira Guerra Mundial, depois de novo no final da Segunda Guerra Mundial, ao explodir a primeira bomba atómica, depois quando caiu o Muro de Berlim. Na crise financeira de 2008, a quarta grande transformação consecutiva, ninguém percebeu que o mundo tinha mudado de forma radical; fomos compreendendo isso apenas a pouco e pouco.

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publicado às 18:58

Ambição

por Luís Naves, em 25.06.17

Os nossos avós viviam pouco tempo e sonhavam com a sobrevivência da colheita de cada ano, sem pensarem muito no ano seguinte, que pertencia ao longo prazo, e a sua existência era tão precária, que pouca gente se podia dar ao luxo de planear à distância ou de construir algo para as gerações seguintes. E, no entanto, a resignação à realidade era bem mais fácil do que nesta nossa época de ardor e cólera, onde nenhuma ambição é verdadeiramente satisfeita. A cada um de nós foi prometido meio mundo e consentida uma mera fracção. Podemos ver o grande bolo atrás da vitrina, na aparência bastará esticar a mão e será nosso, convenceram-nos de que estará disponível, mas é tudo uma construção ilusória, excepto para uns poucos que nem sequer andam saciados.

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publicado às 18:39


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