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Fatinhos demasiado justos

por Luís Naves, em 01.06.17

Talvez a nossa época seja olhada como um tempo em que havia fatinhos demasiado justos, barbas compridas (por convicção ou moda), atentados cruéis e rebeliões eleitorais. Talvez se lembrem de nós como um bocadinho ingénuos, contemporâneos de uma era superficial, em que o humor era ácido e a elegância rasteira. Gostávamos de fogo de artifício, não tínhamos tempo para nada, a classe média fora destruída e começávamos a inventar inteligência artificial e drones, juntando os dois, enquanto descobríamos planetas em outros sistemas solares e desenvolvíamos algoritmos. A arte não era demasiado interessante, porque tínhamos perdido o sentido trágico da História e suspendido a busca da autenticidade transcendente da vida. As nossas elites eram cínicas e os cidadãos andavam zangados, dispostos a votar nos primeiros que aparecessem a querer arrasar tudo. Tínhamos sido traídos pela ganância dos banqueiros e pela falta de coragem dos intelectuais; vivíamos num lamaçal de dívida, amargos e tristes, com profunda nostalgia pelo passado e com desconfiança cautelosa do futuro.

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publicado às 09:46

Mal-encarado

por Luís Naves, em 31.05.17

A impaciência crescia, igual uma comichão incómoda, das que não nos livramos sem esgravatar sob a pele com as unhas afiadas da raiva. O corpo cansado recusava-se a avançar no doloroso caminho que o Sol abrasava. Todas as pessoas feias me irritavam, mas sobretudo as bonitas, pois a beleza é um insulto: esta por falar alto, a outra por se meter à minha frente; e havia o peso do casaco demasiado quente que me sufocava e a necessidade de gritar no meio da rua, sem que isso fosse possível. A brisa ácida trazia com ela o cheiro da comida gordurosa. Os carros tentavam atropelar-me e cresciam outras ameaças à minha volta: o cão perigoso que me evitou, transeuntes hostis, jovens que falavam alto e me queriam empurrar do passeio, o vendedor que me impingia algo e desistiu logo, o bronco tatuado que caminhava a sorrir (para quê), a velha irritante cheia de sacos, o miúdo com os pés no banco a olhar para o telemóvel, o chão sem sombras, o avião a rugir por cima das casas, a pomba parva que trotava à distância de um pontapé, a fila de carros parados a buzinar, as manchetes cretinas dos diários e o tom delico-doce das montras, tão felizes, que apetecia espatifar com uma pedrada.

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publicado às 18:47

Tralha

por Luís Naves, em 30.05.17

Acumulamos objectos ligados à nossa memória, dos quais temos dificuldade em separar-nos, mas que talvez sejam apenas coisas empoeiradas, que não interessarão a ninguém depois de nós, os seus proprietários, desaparecermos desta Terra. Na visita às catacumbas do computador, encontrei, numa incrível confusão, textos esquecidos que poucos leram ou que nem sequer foram publicados. Estavam cheios de poeira e julgo que a recente síncope da máquina misturou e alterou muitos deles. Quantos terão sido apagados? Esboços, excertos, pedaços, antiguidades, pequenas reflexões, repetições, variações do mesmo tema, obsessões e teimosias, delírios, monstros disformes, ideias péssimas, coisas incompletas e coxas, frases insensatas, passagens com observações incompreensíveis, hesitações e memórias esquecidas, histórias mortas, convicções incertas, textos cheios de lógica e sem graça, que guardei por qualquer razão que me escapa, talvez para os juntar ao nada onde acumulamos toda a tralha das nossas vidas.

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publicado às 18:42

Ilusões

por Luís Naves, em 28.05.17

A Alemanha, tão confiante nos benefícios de uma integração mais acelerada, admite livrar-se da tutela americana que lhe garantiu a independência e a actual riqueza. Compreende-se a frustração de Donald Trump e de Vladimir Putin, herdeiros dos vencedores de Ialta, que obviamente não vão facilitar estas ambições. Com a saída do Reino Unido da UE, provavelmente uma separação litigiosa, a chanceler enfrenta o seguinte panorama inédito: os ingleses (e americanos) estão cada vez mais fora da equação continental e não interferem; os franceses precisam dos mercados alemães, a Itália precisa de ajuda financeira alemã de emergência; a Polónia (enfim, o antigo Império Habsburgo) é pobre e precisa do investimento alemão. Isto, no fundo, é a Europa alemã que Bismarck sonhou e não tem nada a ver com as comunidades europeias e NATO, que visavam a protecção e reconstrução da Europa, integrando os países derrotados num conjunto onde os vencedores dominavam.

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publicado às 15:36

Os dominadores

por Luís Naves, em 27.05.17

O fascínio de Os Dominadores, de John Ford, não parece ter explicação. Mistura de história de índios e cowboys, de filme de guerra e sentimental, tem em si qualquer coisa de transcendente e poético. A obra é também, numa leitura mais profunda, uma reflexão despretensiosa sobre a inexorável passagem do tempo, com um pedaço de nostalgia e outro de contemplação dos largos espaços da Terra. Ao rever este filme de 1949 numa cópia com cores baças, pareceu-me mais antigo e precioso: o avanço da coluna de cavalaria no meio da tempestade não era um truque e sentia-se a pequenez do homem na imensidão da paisagem. Aliás, as pequenas coisas humanas da continuidade da vida são envolvidas por uma camada de inocência, mas isto não basta para explicar o fascínio. Estamos num território imaginário, mas não o sentimos como tal. O tempo decorre no intervalo de uma patrulha, mas o filme está impregnado de eternidade. Tudo se ajusta, os actores, os diálogos, a acção, e somos transportados sem resistência para aquele universo inventado onde tudo flui e é movimento tranquilo. Uns filmes envelhecem e outros, mais raros, preservam a autenticidade e a pureza originais. E destes tempos clássicos julgo que saiu uma magia que já não se repete.

Existe igualmente neste filme uma interessante visão de um mundo desaparecido: a ordem ameaçada num território dominado por guarnições, de onde saem colunas em patrulha; os índios armados por empresários sem escrúpulos; a difícil negociação com nativos cujos problemas estão para além do interesse da história; a pax americana benevolente, mas se necessário impondo pela força os valores da civilização; um poder militar ao serviço do progresso, num país com divisões ainda visíveis. Esta foi a América do pós-guerra, hoje não consensual, pois cresce a tendência para estabelecer uma nova estratégia, com menos fortes e guarnições, menos interferência nos assuntos dos nativos, menos patrulhas e domínio.

Assim, este mundo de John Wayne já nem sequer existe, excepto na nossa imaginação, pois acabou depois de Ronald Reagan. 

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publicado às 11:22

Camilo e a mesa

por Luís Naves, em 26.05.17

Dos quase 200 títulos de Camilo não se extraem muitos elementos sobre as funções básicas da natureza humana. É difícil, por exemplo, perceber como é que as pessoas se lavavam ou o valor relativo de um objecto, em comparação ao salário de um camponês. Esse tipo de informação pode extrair-se da obra de Balzac, mas no caso de Camilo é difícil, pois sabemos a renda das quintas sem sabermos coisas menores, por exemplo o custo de uma galinha ou o preço de um fato.

Há referências a gastronomia, mas têm geralmente uma função narrativa. Estou a lembrar-me de uns pastéis em A Brasileira de Prazins ou das opíparas refeições do falso D. Miguel no mesmo romance: aquilo serve como comédia. Há referências a glutões e a banquetes, um piquenique em Coisas Espantosas, ocasionais autênticos petiscos nas miscelâneas, mas na maioria dos livros de Camilo não encontramos qualquer referência a refeições; quando estas existem, as cozinheiras são trabalhadoras do povo mais interessadas em sexo (Anátema).

O provinciano Camilo desconfiava das novidades da culinária francesa, veja-se esta passagem de O Sangue: “Quem come francêsmente cria alma; corpo é que não. Aquele magro molho em que bóiam cascas farináceas não entulha os ductos da intelectualidade. A víscera vital por excelência não escoiceia o vizinho de cima, como sucede nos casos em que o esófago arfa sacudido pelo estômago repleto de fibrina. O coração agita-se docemente quando o novo quilo se está elaborando”. Enfim, o escritor não acreditava nas subtilezas dos sabores, mas apenas no coice intelectual da proteína, nas virtudes substantivas do colesterol e, acima de tudo, na luxúria da linguagem e do estilo.

Em O Santo da Montanha, há duas cenas à mesa, mas a primeira serve para o encontro entre as personagens, a segunda para a tragédia, com uma descrição alimentar pouco abonatória. Neste romance, a comida que surge na primeira refeição parece antecipar a desgraça futura das personagens, quando os leitores ainda não sabem que se trata de uma história de ciúmes assassinos: “Abancados à tosca mesa, cuja toalha tresandava ao fartum do azeite e bacalhau, apareceu a travessa fumegante com duas galinhas, sobre as quais se levantava uma pirâmide de três salpicões, assentes num grosso lardo de toucinho”. A descrição tem um elemento substancial, doentio, e uma intenção repugnante (não quero exagerar, mas talvez isto seja uma alusão inconsciente ao horror do sexo), como se houvesse aqui um aviso do escritor para as personagens se afastarem umas das outras, pois nesta altura ainda vão a tempo de o fazer.

Podia referir outros exemplos onde a comida tem função narrativa, caracteriza a classe social das personagens, introduz um momento de humor ou é mera decoração de uma cena burguesa. Camilo está longe de se interessar por gastronomia ou culinária. O que explica a aparente abundância de referências a comida é sobretudo a dimensão invulgar da obra, sobretudo dedicada à violência, ao amor, à maldade, hipocrisia, enfim, às paixões e ao destino.

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publicado às 15:40

Atentado de Manchester (2)

por Luís Naves, em 24.05.17

Como não acredito na explicação da doença mental do terrorista, já que todas as suas acções foram racionais e planeadas ao pormenor, então tem forçosamente de existir uma explicação mais complexa para atentados como o de Manchester. Um terrorista radicalizado a este ponto acha que os seus valores são de outro domínio, por isso está-se nas tintas para a eventual não publicidade ao seu nome em meios de comunicação que despreza, sabendo que ocupará o seu devido lugar num paraíso fora desta Terra. E se os seus valores são de outro mundo, que lhe importa a glória e a fama neste? E nós, o que fazemos perante o choque? Acendemos velas, erguemos uns altares, dizemos umas piedades, lemos uns artigos chorosos sobre algumas das vítimas, com preferência pela história de membros das minorias…

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publicado às 08:11

O atentado em Manchester

por Luís Naves, em 23.05.17

Que diabo, estes malucos estão a matar as nossas crianças! A ideia de uma crise dentro do Islão não explica que um tipo se faça explodir ao pé de gente tão vulnerável, para mais sendo criado em Inglaterra. É que não existe aqui um alvo militar, caramba, uma coisa que se veja, um símbolo de opressão, uma merda qualquer que nos envergonhe, não, ele queria simplesmente matar o máximo de crianças que saíam de um inocente concerto. A crise dentro do Islão existe, podemos desenvolver explicações, o petróleo e essas merdas, a distribuição catastrófica da riqueza, os líderes corruptos e o conflito com Israel e ainda a guerra entre sunitas e xiitas, mas isso não explica que estes fanáticos estejam a conseguir infernizar a vida dos ocidentais, trazendo com eles ideias que consideramos absurdas; aliás, nem sequer trouxeram nada com eles pela razão simples de terem vivido sempre nas nossas próprias sociedades. Os autores destes atentados são indivíduos jovens, que viveram toda a sua vida em sociedades ocidentais ou cristãs, mas que se matam em nome do Islão radical e sem terem qualquer experiência da crise do mundo muçulmano. Estas pessoas pertencem à segunda ou terceira geração de comunidades imigradas, que se integraram mal nas sociedades ocidentais e que julgam ter valores superiores aos nossos, nomeadamente religiosos. O que leva estes indivíduos à radicalização? Será a crise do Islão, a ideologia, um choque civilizacional? O que leva estas pessoas a rejeitarem valores com que tiveram amplo contacto, por exemplo, a liberdade, a democracia, os direitos humanos, valores que consideramos tão essenciais?

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publicado às 08:08

O Leopardo

por Luís Naves, em 18.05.17

Revisão de O Leopardo, de Luchino Visconti, que passou na versão original italiana (tinha visto apenas a dobrada em inglês, com a voz de Burt Lancaster). O filme de 1963 narra um período da vida de um aristocrata de meados do século XIX, o Príncipe Salina, que enfrenta o aparecimento de uma nova ordem política, liderada por indivíduos que acumularam riqueza de forma que não está bem explicada, mas que o príncipe parece desprezar. A sociedade de O Leopardo é parecida com a descrita nos livros de Camilo Castelo Branco: também temos ali a pobreza extrema (que não importa ao narrador), camponeses de chapéu na mão saudando aristocratas falidos que vivem de rendas cada vez mais curtas; estes ricos empobrecidos mantêm um estilo de vida faustoso que não podem sustentar, observando com horror a ascensão dos arrivistas sociais, que no fundo pertencem ao mesmo povo que essa classe dominante continuará a pastorear, julgando dispor de um direito divino ao exercício do poder. A revolução é uma mudança controlada, uma tempestade quase cómica que não altera o essencial, embora marque a passagem das gerações e represente uma transição em que se perde afinal algum do esplendor antigo.

Às tantas, dei-me conta de que a história é hoje bem mais certeira do que na década de 50, quando Tomasi di Lampedusa escreveu o livro original (recusado por vários editores durante a sua vida, sendo publicado por um editor comunista). Também hoje vivemos num período de mudança cínica, onde as velhas estruturas se adaptam a movimentos telúricos populistas. Uma parte substancial da população sente que empobrece e mostra descontentamento em relação à distribuição da riqueza, que beneficia de forma desproporcionada a metade superior da sociedade. No fundo, isto também acontecia no mundo do Príncipe Salina: só vemos no filme a dinâmica das classes ricas, mas a revolução traída tinha talvez na sua base o empobrecimento dos camponeses e a acumulação da riqueza pela burguesia emergente. E a ideologia do poder que vemos no filme parece actual: a ordem política dominante triunfa em oposição à desordem caótica dos derrotados, que queriam verdadeiras mudanças.

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publicado às 09:40

Encontrado num baú e retirado do contexto

por Luís Naves, em 09.05.17

Entre os meus trinta anos e os meus quarenta, parece-me agora, o tempo fluiu com monotonia e numa espécie de preguiça menos memorável do que outras fases da minha vida. Devia ter sido o apogeu dos meus dias, mas foi simplesmente uma época difusa. O país mudara muito e as pessoas muito pouco. A esta distância é fácil perceber o que fizemos mal, mas talvez seja injusto culpar a política ou a indolência pelo adormecimento temporário da nação e das pessoas. Aquela época foi apenas assim, a ponte para um mundo novo, a transição que tínhamos de atravessar, só não sabíamos que sob os nossos pés se estendia um abismo assim tão vazio.

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publicado às 16:23


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