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O país imaginário

por Luís Naves, em 26.10.17

A crise catalã parece ser um exemplo do crescente desfasamento contemporâneo entre a vida das elites e a vida dos que não têm voz, sendo que os privilegiados tendem a criar uma visão mítica da existência de todos os outros. Os independentistas catalães fantasiaram um país imaginário, que flutua cada vez mais no vazio, separado das circunstâncias factuais que vão surgindo. Perante o desenrolar dos factos, à medida que se vai impondo a cruel realidade, as pessoas que defendem a independência choram, indignam-se, emocionam-se, não compreendem o esboroar do processo. Em Portugal, está a desenvolver-se devagarinho uma idêntica ilusão fantasmagórica sobre o país real e a sua posição no mundo.

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publicado às 21:42

Um resumo

por Luís Naves, em 15.10.17

Em resumo, ocorreu um autêntico assalto ao Estado, com destruição de riqueza em escala colossal. Houve conluio entre certos banqueiros e políticos, visando a apropriação de milhares de milhões de euros, consumada à vista de uma classe dirigente que preferiu olhar para o lado. O dinheiro volatilizou-se e certamente haverá fortunas secretas, estacionadas em paraísos fiscais. Portugal foi esfolado vivo, a classe média pagou a factura, incinerada neste processo, as corporações reforçaram o seu domínio e a sociedade civil está de rastos. A grande crise foi, no essencial, uma imensa transferência de riqueza pública para as mãos de elites corruptas, além da destruição pura e simples de riqueza acumulada durante décadas. Tudo isto foi feito com a complacência e participação dos partidos, incluindo a acumulação de dívidas brutais, acordos ruinosos de parcerias público-privadas, contratos com regras tóxicas, bancos que enganaram clientes e empresas que pagaram luvas para obter privilégios em concursos. Não sei como é que no futuro se irá olhar para este período negro da nossa democracia, mas julgo que as futuras gerações se espantarão por o regime ter sobrevivido à escandalosa omissão das instituições e à extensão de todas as histórias mal contadas, que o tempo se encarregará de revelar no seu esplendor. O plano dos oligarcas era controlar a política, a comunicação social, a justiça, a máquina do Estado e o capitalismo de compadres. E esse plano de poder só falhou porque houve a bancarrota. Não há nada de parecido na nossa História, nem o caso Alves dos Reis, na agonia da I República.

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publicado às 21:39

As bolhas

por Luís Naves, em 07.10.17

Um pequeno artigo em The Economist fazia referência a um estudo do Deutsche Bank sobre a acumulação do valor dos activos financeiros nas economias avançadas. A coisa é teórica, foi discutida em sites especializados com enorme excitação, mas tento resumir: nos últimos dois séculos, os activos financeiros nunca estiveram tão valorizados como agora, o que indica a possibilidade iminente de se iniciar o processo de queda de valor, ou seja, de haver nova crise financeira, porventura tão ou mais grave do que a anterior. Além da previsão de que provavelmente não haverá aviso, o que mais assusta no gráfico que o DB produziu é a coincidência entre as inversões dramáticas e as grandes calamidades da História. À euforia na constante obtenção de valor de obrigações e capitais, num período longo, segue-se uma descida que pode durar décadas. Segundo os dados do relatório do banco, o valor dos activos financeiros está em curva ascendente desde os anos 80, quando começou o longo período de forte endividamento de empresas e países. A crise de 2008, causada pelo estoiro da bolha dos subprime, não travou a ascensão desta curva, pelo contrário, ela continua a crescer, o que não pode manter-se eternamente. A bolha financeira global vai estoirar um dia, só não sabemos quando e como; então, começará a longa descida, que pode prolongar-se por uma geração. Quem, daqui a 50 anos, olhar para um gráfico actualizado deste indicador, verá um pequeno pico ou planalto, a marcar uma nova crise mundial, talvez a rebentar no início da década de 20, ou talvez por estes dias.

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publicado às 21:36

Banal

por Luís Naves, em 06.10.17

Quando a estupidez se banaliza, deixa de parecer estúpida, para parecer apenas banal.

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publicado às 21:33

Deixem-nos votar

por Luís Naves, em 02.10.17

Na Catalunha, ontem, houve uma espécie de pequena revolução, com as emoções independentistas a tomarem conta da rua. O referendo não teve boletins, listas, policiamento ou debate: foi uma chapelada venezuelana com contagem controlada pelos separatistas, mas os incidentes policiais foram transformados pelos demagogos em protestos legítimos e queixas antigas. Em certa medida, os separatistas já venceram. A democracia espanhola tem má imprensa e é oficial, existe o bom e o mau nacionalismo; o catalão é do bom, o espanhol é mau. Em resumo, um grupo de populistas mobilizado e manipulando raivas difusas pode vencer facilmente uma democracia madura que tente aplicar a lei. É tudo uma questão de imagem. O modelo vai propagar-se pela Europa. A teoria do ‘deixem-nos votar’ permitirá acordar todos os ressentimentos adormecidos, os rancores velhos e as feridas mal cicatrizadas dos tratados punitivos do final da Grande Guerra. A doutrina ‘deixem-nos votar’ convoca o baile dos fantasmas.

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publicado às 10:45

A dúvida faz sentido?

por Luís Naves, em 27.09.17

A vingança das nações é uma reacção quixotesca a mudanças mais profundas a que assistimos com espanto e receio. Em todo o mundo avançado decorrem discussões sobre a identidade da nação, mas poucos se interrogam sobre se estas polémicas fazem sentido: ser hoje nacionalista é embrulhar-se numa bandeira ou ajoelhar em protesto quando toca o hino? ter uma nostalgia gastronómica? falar certa língua ou emocionar-se com uma vitória desportiva? Serei eu, então, bom português? Enfim, detesto cozido à portuguesa, acho a bandeira feia e há milhões de pessoas que falam a minha língua e dizem pertencer a outras nações. A Revolução Francesa abriu caminho ao florescimento de patriotas que, em certos casos, deram origem a impérios e a Estados totalitários, todos mantendo a ideia central de que um determinado povo, nação ou classe controlava o seu destino. A política a que assistimos já não tem nada a ver com esse passado, somos quase todos burgueses, veneramos o capitalismo, aceitamos sem incómodo o poder do Estado, mas sabemos que isto anda tudo ligado e interdependente. Pátria, povo e comunidade são palavras que enchem a boca dos políticos, mas tendo perdido o velho significado que tinham. O que é hoje ser patriota? Pagar impostos? ter uma visão mítica da história? citar clássicos da literatura e achar parvamente que os nossos autores são os melhores?

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publicado às 19:48

Vitória amarga

por Luís Naves, em 24.09.17

As sondagens à boca das urnas apontam para uma surpresa relativa nas eleições legislativas alemãs: o resultado da grande coligação no poder é o pior de sempre; somados, os dois grandes partidos que dominaram durante mais de meio século a vida política da República Federal terão pouco mais de 52% dos votos, menos 15 pontos percentuais do que conseguiram em 2013. A extrema-direita populista entra no parlamento quase a triplicar a votação anterior, quando falhou por um triz a barreira dos 5%. A fragmentação partidária obrigará a chanceler Angela Merkel a uma coligação potencialmente instável, que exigirá longas negociações, a chamada coligação Jamaica, que incluirá cristãos-democratas, liberais e verdes. A confirmarem-se os resultados (e falta o cálculo essencial de número de deputados), a Alemanha terá um governo complicado, com dois partidos minoritários que discordam entre si em numerosos assuntos (julgo que não haverá deputados suficientes para um governo só com CDU e o FDP, mas saberemos mais logo). FDP e Verdes são próximos em muitos temas europeus, mas terão opiniões diferentes na política de imigração, nas questões económicas e na definição da futura União Europeia.
As sondagens falharam, os analistas e os políticos subestimaram o descontentamento popular, a imprensa deixou de entender os verdadeiros sentimentos da opinião pública. A bolha em que vivem as elites começa a ser perigosamente distante da realidade em que vivem os desfavorecidos. Na sondagem à boca das urnas que a BBC está a usar, a CDU terá apenas 32% e o SPD, com 20%, terá sido cilindrado. O voto de protesto (AfD e Linke) soma um em cada quatro, o que parece uma enorme proporção para um país em boa situação económica. Nos últimos meses, houve entre os comentadores uma espécie de euforia de europeísmo desenfreado. Nessa narrativa, estava tudo a correr maravilhosamente, sob a batuta da nova líder do mundo livre; e ps indicadores económicos demonstravam que era finalmente possível avançar com grandes utopias de federalismo europeu. Todos se esqueceram dos eleitores. Afinal, o descontentamento dos perdedores da globalização não desapareceu, há muitas pessoas que recusam as ideias internacionalistas e que olham com desconfiança para o que consideram ser a diluição da sua identidade. Será interessante olhar para a reacção dos mercados, amanhã, se começa ou não a instalar-se algum nervosismo.

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publicado às 20:00

Mudança de modelo

por Luís Naves, em 16.09.17

A maior consequência da saída do Reino Unido da União Europeia não será um colapso do comércio ou uma recessão. Londres estava fora da moeda única e, por isso, já estava fora da união, pois a única maneira de manter a prazo a estabilidade da moeda comum europeia será aprofundar as instituições políticas que a regulam (quem paga as contas tem de ter uma maneira de controlar as decisões). O orçamento comunitário vai crescer a prazo, pelo que haverá impostos europeus; existirá um poder transnacional com capacidade para forçar um país a fazer reformas estruturais impopulares; um acordo entre franceses e alemães será imparável; um país que não cumpra as regras terá de ser afastado do euro e lançado para o patamar de comércio livre dominado por Londres (a EFTA reanimada), embora neste ponto exista um problema, pois se a saída for demasiado fácil não fica ninguém na moeda comum. Enfim, acabou a fase de bom senso, que visava criar uma aliança de nações e um mercado único, e começa a erguer-se uma federação burocrática, que pela sua natureza terá de reprimir todos os nacionalismos, menos o francês e o alemão.

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publicado às 20:18

Portugal visto pela CIA

por Luís Naves, em 13.09.17

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Amanhã, quinta-feira, 14, é lançado em Lisboa, na FNAC do Chiado, a partir das 18 e 30, o meu livro Portugal Visto pela CIA, uma edição da Bertrand que terá apresentação da historiadora Irene Pimentel. Com base em relatórios secretos, até hoje inéditos, tento analisar a forma como os espiões americanos olharam para o nosso país durante um período longo, entre os anos 40 e o final dos anos 80. No fundo, trata-se de uma radiografia da sociedade portuguesa e das diferentes situações políticas, mas também da mentalidade do povo e das elites. A CIA acompanhou de perto as perturbações do Estado Novo, a ditadura salazarista, a guerra colonial, a primavera marcelista, a revolução e o fim do império. Houve vários exemplos de má avaliação, mas também observações certeiras sobre as ilusões nacionais e a nossa tendência para delírios poéticos. Assim, gostaria de convidar para a sessão de lançamento todos os leitores interessados neste tema.

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publicado às 12:09

O independentismo folclórico

por Luís Naves, em 12.09.17

O processo de independência da Catalunha está a ser tratado com pinças pelos meios de comunicação nacionais, talvez pela circunstância do tema ser fracturante dentro da chamada geringonça, a aliança de poder entre esquerda radical e centro-esquerda. Muitos dos nossos comentadores olham com indisfarçada simpatia para o separatismo catalão, que é sobretudo folclórico e sentimental. E, no entanto, se a Catalunha se separasse da Espanha, isso era objectivamente péssimo para os interesses portugueses.
Para os catalães, a independência era uma calamidade: ficavam mais pobres, mais inseguros e provavelmente menos livres, pois muitos cidadãos têm raízes na Andaluzia ou na Galiza, de onde os seus pais emigraram há 40 ou 50 anos, atraídos pelo emprego industrial desta próspera região.
A independência da Catalunha, sobretudo num processo ilegal como aquele a que assistimos, implicava a imediata saída da União Europeia e da zona euro. E podia ser uma saída sem regresso. Os catalães negociariam um período de transição, mas fora do BCE e do mercado único. Passados alguns anos, a Catalunha teria imensas dificuldades em regressar à UE, pois a Espanha e todos os países com minorias separatistas tenderiam a votar contra.
Entre os nossos comentadores da esquerda avoluma-se uma tese extraordinária, de que há nacionalismos bons e nacionalismos maus; há aspirações nacionais que temos de combater e outras que podemos defender com simpatia. Há constituições que devem ser preservadas e outras que podemos rasgar. Há Estados onde os tribunais pesam e as leis se aplicam e outros onde isso não é bem assim.
O mais espantoso, nos nossos dias, não é este desejo popular de reforçar a identidade das nações, mas a tendência suicidária que se manifesta em sectores substanciais das sociedades mais ricas, neste caso entre a burguesia catalã, mas podia citar o exemplo do Brexit. É este o maior enigma: o que leva países prósperos a namorar os abismos?

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publicado às 15:40


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