Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Cinismo dos eleitores

por Luís Naves, em 11.06.17

Eleições em França, primeira volta das legislativas. A maioria presidencial arrasou os partidos tradicionais, Emmanuel Macron está a ser muito elogiado por isso, mas a excitação parece imprudente: a abstenção foi superior a 50%, coisa nunca vista, e percebe-se que a maioria presidencial na primeira volta foi inferior à de François Hollande em 2012: 32%, em vez de 40% para um presidente que foi incapaz de fazer reformas. Há aqui sinais de cinismo dos eleitores, que deviam fazer pensar os analistas. Se o novo presidente rebentou com os partidos, é natural que muitos franceses sintam por enquanto que não vale a pena votar, pois é certa a vitória dos candidatos relativamente desconhecidos apresentados pela maioria (votar contra eles não é opção, pois garante o caos). Bem mais grave é a possibilidade concreta de não haver oposição em França: Macron está a engolir tudo à volta, formando um albergue espanhol para oportunistas, em vez de um projecto político coerente. Com a assembleia domesticada, os eleitores terão de ventilar a sua frustração por outros meios democráticos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:20

Novo sismo eleitoral

por Luís Naves, em 09.06.17

Novo sismo eleitoral no Reino Unido: em legislativas antecipadas, num erro de cálculo histórico, o Partido Conservador desbaratou a maioria que tinha no parlamento. Embora fosse o partido mais votado e a primeira-ministra Theresa May possa formar novo governo, é possível que haja uma insurreição interna ou uma situação de alta instabilidade. Na prática, existe um parlamento ‘pendurado’, ou seja, um impasse a exigir coligação. Este resultado confirma o padrão de insatisfação popular nos países desenvolvidos: o eleitorado não quer a política habitual nem os políticos do costume, os que vivem na sua bolha, alheados da realidade. Os conservadores entraram nestas eleições demasiado confiantes, não perceberam o descontentamento popular e fizeram uma péssima campanha. May queria negociar na Europa com a sua autoridade reforçada, mas vai entrar nas negociações do Brexit, dentro de dias, num calamitoso estado de fragilidade. A primeira-ministra subestimou o adversário, Jeremy Corbyn, que ganhou com o regresso ao bipartidarismo tradicional e que parece seguir com habilidade a máxima de Napoleão: ‘nunca interrompas o erro do adversário’.

Estas eleições mostram a crescente importância da gestão de expectativas. Muitos britânicos assustaram-se com a possibilidade (ainda em Maio) de um triunfo absoluto dos conservadores. As sondagens de Abril e Maio apontavam de forma unânime para uma diferença superior a cem deputados em relação aos trabalhistas (afinal, foi de apenas 57). Nos seus cálculos complacentes, os conservadores pensaram que iam garantir 80% dos votos do partido nacionalista UKIP, que praticamente desapareceu; ora, os trabalhistas atraíram uma proporção significativa destes eleitores, talvez mais de metade, garantindo com esse acréscimo de dois ou três pontos percentuais que os conservadores não ganhavam por landslide, ou derrocada do adversário. Ontem, embora fossem perdedores (ficaram em segundo lugar e não formam maioria), os trabalhistas definiram-se logo como os vencedores das eleições. Todos os eleitos repetiam a narrativa de que tinham ganho e os observadores, internos e externos, diziam o mesmo. Como se esperava o colapso do partido, a votação competitiva pareceu uma vitória. Vivemos assim numa fase estranha das democracias, em que os derrotados podem sair vencedores e os que ganham podem ser considerados ilegítimos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:04

Exemplo de ser português

por Luís Naves, em 07.06.17

Li na imprensa que um homem foi detido e levado a tribunal por furtar um saco de morangos no valor de 2,5 euros. Isto aconteceu no mesmo país onde se reclamam inocentes todos os banqueiros que estoiraram com bancos inteiros e ainda governantes que se governaram em contas bancárias de milhões que não estavam em seu nome, sem falar nos gestores cujas empresas têm lucros garantidos à custa do bolso de todos, mediante leis devidamente fabricadas para o efeito, pois esfolar legalmente um país inteiro não é crime. Este é o mesmo país onde vão presos ladrões de morangos e ficam à solta os benfeitores que nos roubem a valer; um país que se habituou aos grandes ladrões a quem chama doutores, mas que não tolera o pequeno furto de morangos feito por amadores; boa pátria para quem a desfruta, mas de mão pesada para quem cobiçar fruta, ou neste caso, o fruto acessório agregado, o que a botânica diz que um morango é. Pois neste país tudo pode ser, no fundo, acessório agregado, se visto do ponto de vista das elites que nos sacam, retirando as partes carnudas do corpo da nação sem que isso constitua furto ou delito, o mesmo não se dizendo para quem de repente, saltando uma simples vedação, levar um saco com morangos que, sendo propriedade privada, merece exemplar repressão, enfim, para dar o exemplo sem explicar os porquês. O exemplo de quem pode mandar e o exemplo de quem deve obedecer, de quem tem e de quem deve. Um exemplo, enfim, de ser português.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:14

Doze cavalos

por Luís Naves, em 06.06.17

A Economist é uma revista extraordinária, cuja leitura só dispenso quando estou falido. Encontram-se ali muitas pequenas jóias, como esta história tirada da recensão de um livro sobre cavalos: após seis mil anos de ligação à humanidade, desfeitos em pouco mais de um século, estes animais são agora desnecessários, como eram os doze cavalos da cavalaria britânica que tinham participado na batalha de Waterloo e que um cirurgião da época salvou por razões sentimentais. Os animais andavam em liberdade e segurança, à solta num grande prado da propriedade, onde pastavam tranquilamente; e certo dia, o médico reparou que, sem aviso ou padrão, se juntavam os doze numa linha rigorosamente direita e, sem que houvesse ordem ou ruído indicativo, avançavam de repente a galope, todos juntos, sem nenhum desfazer a formação até um ponto qualquer que só eles sabiam. Depois, recuavam, mantendo sempre a linha direita. E, regressados da carga imaginária, voltavam à sua pastagem, à tranquila reforma que lhes tinham arranjado os humanos, talvez ruminando reminiscências confusas de velhos soldados sobre um grande acontecimento que não podiam compreender e que, mais do que assustador, era para eles bastante memorável.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 00:46

Escândalo na TV

por Luís Naves, em 05.06.17

Network, Escândalo na TV, filme de Sidney Lumet (1976) é provavelmente uma das obras-primas do cinema americano dos anos 70. Quando vi este filme pela primeira vez, há uns trinta anos, interpretei a história como uma crítica à televisão e à comunicação de massas, mas ao revê-lo ontem percebi que está ali uma premonição mais escura, uma espécie de profecia política. A transformação das notícias em entretenimento por uma estação em dificuldades financeiras acaba em tragédia, quando dirigentes irresponsáveis decidem utilizar um apresentador louco para aumentar as audiências. Parece uma crítica de Hollywood aos poderes infantis da TV, no entanto, se fizermos uma leitura política, vemos ali uma representação da ascensão do populismo contemporâneo: muitas das coisas que o apresentador Howard Beale afirma em directo parecem uma antecipação do discurso dos populistas mais desenfreados da Era de Donald Trump. A fama de Beale (espantosa interpretação de Peter Finch) surge quando ele pede às pessoas para gritarem à janela que estão zangadas e ‘não aguentam mais’. E as pessoas fazem isso, embora o filme não nos esclareça o motivo da adesão. Vendo em Network a metáfora política, é impossível não pensar na circunstância deste populismo de Beale começar como loucura, ter uma fase intermédia de descontrolo e uma fase final em que se torna objecto de manipulação dos poderes supremos. Sendo assim, o populismo a que assistimos será igualmente um fenómeno conveniente, que começa como anomalia, parece às tantas correr em pista própria e acaba no redil dos interesses. A política como espectáculo e como reality show afasta todas as outras formas de praticar a política e é uma simplificação que legitima novos poderes e outras simplificações. É fantástica a cena de manipulação do capitalista: ‘As nações não existem, senhor Beale, só existe a IBM, a ITT, o sistema holístico das corporações e dos fluxos financeiros’. Hoje, a única diferença seria Google, Goldman Sachs ou Amazon.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

publicado às 14:23

Novo atentado em Londres

por Luís Naves, em 04.06.17

Outro atentado bárbaro numa cidade europeia, desta vez em Londres, com pelo menos sete mortos e dezenas de feridos, alguns em estado crítico. Começa a ser uma banalidade e lemos os habituais relatos de horror: os terroristas vestiam coletes com latas a fingir de explosivos e esfaquearam as pessoas que antes tinham atropelado e que agonizavam no passeio; depois, atacaram numa zona popular de bares e restaurantes e mataram inocentes durante oito minutos. Parece que se instalou uma devastadora nova táctica de baixa tecnologia; agora, bastam uma carrinha e algumas facas. Os terroristas tendem a ter a nacionalidade dos países onde matam e pertencem geralmente à segunda geração de imigrantes; foram radicalizados por imãs e activistas que actuam com impunidade, em nome da liberdade religiosa, espalhando uma ideologia que despreza a nossa forma de vida, odeia as nossas liberdades, recusa a nossa democracia e visa impor-nos uma visão niilista que nega os direitos humanos. Em vários locais da Europa, com tolerância oficial, instalaram-se milícias radicais que impõem a charia, proibindo, por exemplo, que os cidadãos comprem e bebam álcool; há bairros em França onde as mulheres vestidas de forma ocidental já não podem sair à rua sem serem molestadas; há zonas onde os judeus são os alvos, mas também os cristãos, até mudarem de bairro ou venderem os seus negócios a muçulmanos. A intolerância islamita foi crescendo sob o olhar benevolente das elites bem-pensantes, nomeadamente dos meios de comunicação, que se recusam a perceber a extensão do problema e cujo contacto com as comunidades em crise é limitado. Os líderes da esquerda apoiam esta visão complacente e, por uma vez, guardam na gaveta as ideias feministas e marxistas: os pobres da antiga classe operária, que ainda vivem nos subúrbios repletos de tensão e ódio, deixaram de contar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:47

Supremacia

por Luís Naves, em 02.06.17

Donald Trump decidiu retirar os Estados Unidos do acordo de Paris sobre alterações climáticas e segundo uma das críticas mais comuns, o presidente americano está a abdicar da hegemonia da superpotência e a dar de barato à China a supremacia mundial. As pessoas estiveram mesmo muito distraídas durante a campanha: Trump cumpriu uma das promessas centrais que fez aos americanos e esta administração será isolacionista, ou seja, o presidente quer mesmo reduzir a exposição do seu país aos assuntos globais, escolhendo apenas as lutas que lhe interessam e não entrando em todas. Isto é uma estratégia, não é um efeito secundário. Um dos maiores problemas dos impérios do passado foi a sobre-extensão, ou seja, o envolvimento em demasiados conflitos ao mesmo tempo, com a respectiva dispersão de recursos e constante aumento dos custos imperiais.

Provavelmente, Trump ponderou uma divisão de tarefas com a Rússia, mas este prolongamento de Ialta é hoje politicamente impossível, pois os democratas no Congresso entram em histeria em tudo o que envolva Moscovo, o que certamente terá efeitos para além desta administração. É preciso reler O Choque de Civilizações, de Samuel Huntington. A China não está interessada em ter um papel global e os europeus parecem ter entrado em pânico com os primeiros sinais do novo isolacionismo, que foi uma das tendências da política americana, embora raramente dominante na Casa Branca. A saída do acordo de Paris é um erro e deve ser criticada pelo efeito desastroso que pode ter nas alterações climáticas e na segurança de centenas de milhões de pessoas vítimas de secas e tempestades. A América arrisca-se a perder a liderança no abandono da economia do carbono, mas isso não é inevitável. As promessas de Trump foram no sentido de aumentar o isolamento dos EUA, reduzir a extensão imperial e manter alianças suficientes para garantir a supremacia. É por isso que, ao mesmo tempo que abandona acordos multilaterais, a Casa Branca reforça o investimento nas forças armadas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:16

Fatinhos demasiado justos

por Luís Naves, em 01.06.17

Talvez a nossa época seja olhada como um tempo em que havia fatinhos demasiado justos, barbas compridas (por convicção ou moda), atentados cruéis e rebeliões eleitorais. Talvez se lembrem de nós como um bocadinho ingénuos, contemporâneos de uma era superficial, em que o humor era ácido e a elegância rasteira. Gostávamos de fogo de artifício, não tínhamos tempo para nada, a classe média fora destruída e começávamos a inventar inteligência artificial e drones, juntando os dois, enquanto descobríamos planetas em outros sistemas solares e desenvolvíamos algoritmos. A arte não era demasiado interessante, porque tínhamos perdido o sentido trágico da História e suspendido a busca da autenticidade transcendente da vida. As nossas elites eram cínicas e os cidadãos andavam zangados, dispostos a votar nos primeiros que aparecessem a querer arrasar tudo. Tínhamos sido traídos pela ganância dos banqueiros e pela falta de coragem dos intelectuais; vivíamos num lamaçal de dívida, amargos e tristes, com profunda nostalgia pelo passado e com desconfiança cautelosa do futuro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:46

Mal-encarado

por Luís Naves, em 31.05.17

A impaciência crescia, igual uma comichão incómoda, das que não nos livramos sem esgravatar sob a pele com as unhas afiadas da raiva. O corpo cansado recusava-se a avançar no doloroso caminho que o Sol abrasava. Todas as pessoas feias me irritavam, mas sobretudo as bonitas, pois a beleza é um insulto: esta por falar alto, a outra por se meter à minha frente; e havia o peso do casaco demasiado quente que me sufocava e a necessidade de gritar no meio da rua, sem que isso fosse possível. A brisa ácida trazia com ela o cheiro da comida gordurosa. Os carros tentavam atropelar-me e cresciam outras ameaças à minha volta: o cão perigoso que me evitou, transeuntes hostis, jovens que falavam alto e me queriam empurrar do passeio, o vendedor que me impingia algo e desistiu logo, o bronco tatuado que caminhava a sorrir (para quê), a velha irritante cheia de sacos, o miúdo com os pés no banco a olhar para o telemóvel, o chão sem sombras, o avião a rugir por cima das casas, a pomba parva que trotava à distância de um pontapé, a fila de carros parados a buzinar, as manchetes cretinas dos diários e o tom delico-doce das montras, tão felizes, que apetecia espatifar com uma pedrada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:47

Tralha

por Luís Naves, em 30.05.17

Acumulamos objectos ligados à nossa memória, dos quais temos dificuldade em separar-nos, mas que talvez sejam apenas coisas empoeiradas, que não interessarão a ninguém depois de nós, os seus proprietários, desaparecermos desta Terra. Na visita às catacumbas do computador, encontrei, numa incrível confusão, textos esquecidos que poucos leram ou que nem sequer foram publicados. Estavam cheios de poeira e julgo que a recente síncope da máquina misturou e alterou muitos deles. Quantos terão sido apagados? Esboços, excertos, pedaços, antiguidades, pequenas reflexões, repetições, variações do mesmo tema, obsessões e teimosias, delírios, monstros disformes, ideias péssimas, coisas incompletas e coxas, frases insensatas, passagens com observações incompreensíveis, hesitações e memórias esquecidas, histórias mortas, convicções incertas, textos cheios de lógica e sem graça, que guardei por qualquer razão que me escapa, talvez para os juntar ao nada onde acumulamos toda a tralha das nossas vidas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:42


Mais sobre mim



Links

Alguns blogues anteriores

Locais Familiares

Boas Leituras