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O mérito é o movimento

por Luís Naves, em 08.01.17

Nos Cadernos de Albert Camus há uma frase sobre literatura cuja ideia (ou o que interpreto da ideia) não me sai da cabeça: “O escritor só é comprometido quando quer. O seu mérito é o movimento”. A frase surge numa entrada destes cadernos que julgo ser uma reflexão sobre a intervenção política dos escritores. Será isso um dever ou, pelo contrário, um equívoco? Camus não nos dá uma resposta clara, nem sequer algumas pistas. A explicação estava certamente na cabeça dele.

Os Cadernos reúnem reflexões não destinadas a publicação, com pequenas anotações sobre o trabalho do romancista, sobre os ensaios filosóficos, incluindo entradas com observações da realidade que poderiam ser mais tarde utilizadas em artigos ou obras de ficção. Não é um diário, mas a pequena oficina do autor, para registo das suas ideias. “O escritor só é comprometido quando quer”. Parece evidente, isto vem de uma frase anterior: “Gosto mais dos homens que tomam partido do que das literaturas que tomam partido”. Enfim, parece óbvio, as escolhas políticas do escritor partem da sua consciência e são matéria exclusiva de escolhas individuais.

A segunda frase é o bom enigma: “o seu mérito é o movimento”. Será que significa ‘o que o escritor faz melhor é criar movimento’? Sendo essa a interpretação correcta, julgo que é uma óptima definição de literatura, porque se o texto não se move na imaginação do leitor, estará inanimado. Ou regressando a uma frase mais antiga dos Cadernos: “Os maus escritores: aqueles que escrevem de acordo com um contexto interior que o leitor desconhece”.

O que será então a má escrita? A que não consegue produzir movimento na mente do leitor.

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publicado às 15:51

Algumas reflexões

por Luís Naves, em 06.01.17

Não há escritas inocentes. É um fracasso não conseguir abordar temas tabu. Nenhum escritor está fora do seu tempo, excepto quando imita outro. É uma ilusão julgar que o passado tem mais acontecimentos do que o presente.

Estas são algumas ideias de George Orwell, que fui reunindo, de forma avulsa e sem aspas, da leitura dos seus ensaios. Usei palavras minhas, mas as ideias são dele. Dito de outra forma: toda a escrita é política; o verdadeiro fracasso do escritor é não ter a coragem para falar do que lhe parece ser essencial; nenhuma prosa sincera está fora do seu tempo; conhecemos melhor o presente e devemos escrever sobre aquilo que conhecemos.

Adiciono a estas reflexões uma curta definição de Giacomo Casanova, esse grande escritor europeu, a justificar a escrita das suas memórias: “Digna ou indigna, a minha vida é a minha matéria; a minha matéria é a minha vida”. E, já agora, a primeira anotação de Albert Camus para O Estrangeiro, incluída nos Cadernos. O mecanismo inicial do romance, a faísca, não é mais do que esta frase curta: “Até que ponto foi estranho à sua vida”.

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publicado às 15:47

A revolta da classe operária

por Luís Naves, em 14.12.16

Nas votações onde houve revolta eleitoral os analistas notaram o seguinte padrão: os populistas tinham proporção elevada do eleitorado branco, masculino e de baixas qualificações. Nunca vi isto escrito de outra forma, mas a definição ‘branco de baixas qualificações’ lembra um eufemismo para ‘classe operária’ e, sendo assim, mudaram as tradicionais clivagens entre esquerda e direita. Ao levar o debate político para temas de identidade e fragmentação social, a esquerda perdeu o seu bastião, que evidentemente já não será operário, mas precário, tentando desenrascar-se na adaptação a pequenos serviços e estando nas tintas para a rigidez sindical ou para a linguagem beata que domina os meios de comunicação. A traição dos partidos tradicionais também ocorreu à direita. Os conservadores abandonaram os seus temas favoritos, de pátria, ordem e soberania, a favor da promoção de uma globalização que trouxe benefícios para o capital e prejuízos para os trabalhadores. A extrema-direita apropriou-se dos temas conservadores e, pelo menos em França e Áustria, apropriou-se também do voto operário.

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publicado às 12:51

Não correram rios de tinta?

por Luís Naves, em 13.12.16

Não correram rios de tinta sobre a fraqueza das direcções políticas? Hoje, na opinião publicada, é mais comum encontrarmos o horror ao homem-forte e a tese da estupidez do eleitor contemporâneo, formas úteis de evitar debater o fenómeno da rebelião eleitoral e de impedir a crítica aos poderes instalados. As elites que falharam em tudo na última década querem agora convencer-nos de que devem ser elas a conduzir o processo de renovação. E os comentadores acham que não é preciso mudar nada no sistema. Mas como era possível que a grande crise não desse origem a uma transformação na política? Muitos eleitores sentem que perderam o controlo sobre as suas vidas. Já não existe segurança no emprego e as novas gerações vivem pior do que as anteriores (pagam mais impostos, têm menos direitos, pensões em dúvida, rendas altas, precariedade). Os países estão endividados e as economias crescem a passo de tartaruga. Ocorre igualmente uma desindustrialização generalizada e os países de dimensão média tornaram-se irrelevantes. A isto acresce a ansiedade tecnológica, já que a nova economia é apenas para alguns felizardos.

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publicado às 12:53

A estupidez eleitoral

por Luís Naves, em 12.12.16

Os auto-denominados liberais tentam caricaturar as posições de Donald Trump  sem perceberem que há nestas críticas um corolário inevitável: se o eleitorado é estúpido, então os sistemas políticos devem incorporar mecanismos que evitem o erro sistemático dos eleitores pouco informados ou que evitem a eleição de maus candidatos. Claro que as elites é que decidem o que é um erro ou um mau candidato e, aliás, controlam a informação. Ou seja, o liberalismo começa a defender o seu exacto oposto, não compreendendo que faixas substanciais da população pretendem desmantelar uma ordem liberal que consideram prejudicial para os seus interesses. A esquerda surge no debate com um argumento que lembra os tempos de 1974-75, quando o povo, marcado pelo fascismo e repleto de ingenuidade política, não podia usar o seu novo direito de voto (as organizações populares, os partidos progressistas e o Movimento das Forças Armadas eram considerados mais legítimos do que a Assembleia Constituinte eleita).

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publicado às 12:56

O fim de um ciclo

por Luís Naves, em 10.12.16

Os últimos 30 anos foram marcados pelo triunfo das ideias do liberalismo económico, que transformaram o poder, e pelas utopias forjadas no Maio de 68, que mudaram a cultura. Nos últimos oito anos vivemos a crise final deste ciclo, que foi marcado pela aceleração da globalização e por profundas mudanças no trabalho ou nos meios de comunicação. A geração anterior adoptou progressivamente uma visão moralista que dividia o mundo em bons e maus; os intelectuais excederam-se no duplo critério das análises: basta ver como recentemente o regime totalitário de Fidel Castro, que não deixa dúvidas ao mais desatento, foi envolvido no perfume de uma retórica romântica que ignorou a violência do poder e a miséria do povo cubano; nenhum dos que elogiam os feitos de Fidel acharia tolerável viver em Cuba.

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publicado às 19:43

Nos últimos trinta anos...

por Luís Naves, em 09.12.16

Nestes últimos trinta anos, no Ocidente, a educação foi infantilizada, banalizou-se a contestação primária de toda a autoridade, o cristianismo foi ridicularizado, a família perdeu importância e não há carreiras no poder mediático para alguém que conteste a bondade destas ideias. Liberalismo económico e utopia libertária tiveram o mesmo efeito de fragmentação do poder. Por exemplo, as lideranças moles ou hesitantes são hoje preferidas a líderes considerados ‘duros’; o consenso é elogiado, a ruptura criticada. Os mercados financeiros controlam a economia e é considerado normal que organizações supranacionais não-eleitas fiscalizem países inteiros; a palavra pátria desapareceu dos dicionários e a palavra nacionalista é um insulto. As elites intelectuais entretêm-se a fazer comparações absurdas com os anos 30 e pensam hoje que as fronteiras são o maior perigo que existe no mundo contemporâneo. Os proletários vivem como precários, o pleno emprego foi substituído pelo desemprego crónico, as desigualdades aumentaram, há uma nova classe de excluídos, com menos direitos do que os refugiados.

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publicado às 19:51

O rebanho

por Luís Naves, em 08.12.16

Muitos eleitores atingidos pela crise foram considerados ignorantes quando resmungaram contra o encerramento das suas fábricas ou quando foram expulsos das suas casas, por não poderem pagar hipotecas a bancos salvos com dinheiro público. Estes eleitores foram classificados como racistas e xenófobos quando acharam que a abertura de fronteiras facilitava a entrada de trabalhadores mais baratos, que competiam com os seus salários. Estes eleitores foram desprezados quando insistiram na defesa dos seus valores e tradições, que mais não eram do que tradições e valores que os seus pais e avós tinham como garantidos. Estes eleitores continuam a ser insultados e vão continuar a votar em formas de protesto enquanto mantiverem o direito de voto e os partidos tradicionais não compreenderem que o seu ressentimento e raiva resultam do vazio provocado pela desvalorização da classe média e a extrema insegurança destes eleitores em relação ao seu futuro. As elites trataram o seu ‘povo’ como um rebanho ingénuo que não pode decidir sobre assuntos já validados pelas classes bem-pensantes. E, no entanto, é evidente que as ideias libertárias e liberais não vão desaparecer, embora seja incompreensível que a sociedade não possa discutir racionalmente o sismo político em curso ou os erros que foram cometidos. Os comentadores dizem que vem aí o fim do mundo, que a democracia liberal vai acabar, mas o que seria verdadeiramente calamitoso era que a democracia não conseguisse mudar as lideranças que falharam ou que o sistema político fosse incapaz de reagir às imensas transformações que aconteceram e estão para acontecer nas nossas vidas.

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publicado às 19:56

Onde estão as ideologias?

por Luís Naves, em 07.12.16

O extremismo terá pouco espaço no mundo que aí vem, como aconteceu com o totalitarismo no ciclo anterior. A sociedade será pós-ideológica, mas a esquerda terá de compreender que não pode abandonar as suas causas em troca da defesa de identidades minoritárias que recusam a lógica da igualdade. E os sindicatos continuarão a perder influência enquanto forem burocracias que se limitam a defender castas de instalados. A direita, essa, deve abandonar a ideia de que as desigualdades têm uma qualquer relação celeste com as virtudes dos ricos.

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publicado às 20:01

Westworld

por Luís Naves, em 06.12.16

A série de televisão Westworld é uma das mais perturbadoras obras de ficção que tenho visto. Atingiu-se ali um novo patamar na qualidade do argumento e na profundidade das personagens, na complexidade das ideias, na mistura de narrativas e de camadas temporais. Tal como acontece aos turistas humanos que percorrem aquele mundo, o espectador é confrontado com uma imensa teia de possibilidades e julga descobrir elementos que só ele está a ver. A série levantou questões sobre liberdade, memória e consciência, inteligência artificial, limites do humano e da tecnologia, a moderna indiferença, mas sobretudo sobre a impiedade perversa e a manipulação da realidade, dois aspectos da sociedade contemporânea que certamente farão parte do nosso futuro.

Para mim, o mais difícil foi perceber que a nudez e a violência, quando aplicadas a máquinas, não tinham a mesma capacidade de me incomodar do que na circunstância dessas mesmas cenas envolverem personagens que eu considerasse pessoas. Explico melhor: os autores mostraram que os seres que estavam a ser torturados, maltratados ou mortos, de forma cruel, eram máquinas que, no dia seguinte, estariam de novo na sua tarefa de cumprir uma narrativa pré-programada e inflexível, sem memória da dor sentida nas violações, torturas ou homicídios; o destino trágico repetia-se todos os dias, com pequenas alterações resultantes da interacção com os turistas, mas sem livre arbítrio. Nós, espectadores indefesos, ao entrarmos neste conceito, passamos a funcionar como os turistas, estamos a ver o que acontece a máquinas programadas, e não temos a mesma sensação de horror pela violência que lhes cai em cima. A nudez dos robôs nunca é erotismo, mas vulnerabilidade.

Na prática, os autores conseguiram manipular os espectadores, criando um efeito de desumanização dos robôs, que do nosso ponto de vista formam um grupo separado, cuja rebelião, porventura justa, tem os limites da manipulação da realidade que lhes é imposta. Por este mecanismo, aderimos à falta de compaixão que os turistas demonstram. A morte de personagens-pessoas, nesta série, perturbou-nos sempre mais do que a morte (ridícula, grotesca ou gratuita) das personagens-máquinas.

Para onde irá a segunda temporada? Aparentemente (tal como acontecia no filme original) há outros parques temáticos. As máquinas estão a evoluir e tornam-se progressivamente conscientes; vamos talvez estar mais do seu lado, mas os deuses (que somos nós) continuarão a dominar o mundo deles; tudo o que vimos é provavelmente engano, como aconteceu na genial cena pirosa da morte de Dolores, a máquina que resume a ideia da busca da beleza e da liberdade (que define o humano), a robô que possui a centelha da consciência e da vida e que, segundo parece, vai liderar a rebelião. Enfim, seremos turistas neste explosivo e contraditório Westworld, que não é um mundo a preto e branco, daqueles que a televisão nos deu até hoje, onde a gente sabia exactamente onde arrumar o bem e o mal.

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publicado às 20:03


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