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A estupidez eleitoral

por Luís Naves, em 12.12.16

Os auto-denominados liberais tentam caricaturar as posições de Donald Trump  sem perceberem que há nestas críticas um corolário inevitável: se o eleitorado é estúpido, então os sistemas políticos devem incorporar mecanismos que evitem o erro sistemático dos eleitores pouco informados ou que evitem a eleição de maus candidatos. Claro que as elites é que decidem o que é um erro ou um mau candidato e, aliás, controlam a informação. Ou seja, o liberalismo começa a defender o seu exacto oposto, não compreendendo que faixas substanciais da população pretendem desmantelar uma ordem liberal que consideram prejudicial para os seus interesses. A esquerda surge no debate com um argumento que lembra os tempos de 1974-75, quando o povo, marcado pelo fascismo e repleto de ingenuidade política, não podia usar o seu novo direito de voto (as organizações populares, os partidos progressistas e o Movimento das Forças Armadas eram considerados mais legítimos do que a Assembleia Constituinte eleita).

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publicado às 12:56

O fim de um ciclo

por Luís Naves, em 10.12.16

Os últimos 30 anos foram marcados pelo triunfo das ideias do liberalismo económico, que transformaram o poder, e pelas utopias forjadas no Maio de 68, que mudaram a cultura. Nos últimos oito anos vivemos a crise final deste ciclo, que foi marcado pela aceleração da globalização e por profundas mudanças no trabalho ou nos meios de comunicação. A geração anterior adoptou progressivamente uma visão moralista que dividia o mundo em bons e maus; os intelectuais excederam-se no duplo critério das análises: basta ver como recentemente o regime totalitário de Fidel Castro, que não deixa dúvidas ao mais desatento, foi envolvido no perfume de uma retórica romântica que ignorou a violência do poder e a miséria do povo cubano; nenhum dos que elogiam os feitos de Fidel acharia tolerável viver em Cuba.

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publicado às 19:43

Nos últimos trinta anos...

por Luís Naves, em 09.12.16

Nestes últimos trinta anos, no Ocidente, a educação foi infantilizada, banalizou-se a contestação primária de toda a autoridade, o cristianismo foi ridicularizado, a família perdeu importância e não há carreiras no poder mediático para alguém que conteste a bondade destas ideias. Liberalismo económico e utopia libertária tiveram o mesmo efeito de fragmentação do poder. Por exemplo, as lideranças moles ou hesitantes são hoje preferidas a líderes considerados ‘duros’; o consenso é elogiado, a ruptura criticada. Os mercados financeiros controlam a economia e é considerado normal que organizações supranacionais não-eleitas fiscalizem países inteiros; a palavra pátria desapareceu dos dicionários e a palavra nacionalista é um insulto. As elites intelectuais entretêm-se a fazer comparações absurdas com os anos 30 e pensam hoje que as fronteiras são o maior perigo que existe no mundo contemporâneo. Os proletários vivem como precários, o pleno emprego foi substituído pelo desemprego crónico, as desigualdades aumentaram, há uma nova classe de excluídos, com menos direitos do que os refugiados.

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publicado às 19:51

O rebanho

por Luís Naves, em 08.12.16

Muitos eleitores atingidos pela crise foram considerados ignorantes quando resmungaram contra o encerramento das suas fábricas ou quando foram expulsos das suas casas, por não poderem pagar hipotecas a bancos salvos com dinheiro público. Estes eleitores foram classificados como racistas e xenófobos quando acharam que a abertura de fronteiras facilitava a entrada de trabalhadores mais baratos, que competiam com os seus salários. Estes eleitores foram desprezados quando insistiram na defesa dos seus valores e tradições, que mais não eram do que tradições e valores que os seus pais e avós tinham como garantidos. Estes eleitores continuam a ser insultados e vão continuar a votar em formas de protesto enquanto mantiverem o direito de voto e os partidos tradicionais não compreenderem que o seu ressentimento e raiva resultam do vazio provocado pela desvalorização da classe média e a extrema insegurança destes eleitores em relação ao seu futuro. As elites trataram o seu ‘povo’ como um rebanho ingénuo que não pode decidir sobre assuntos já validados pelas classes bem-pensantes. E, no entanto, é evidente que as ideias libertárias e liberais não vão desaparecer, embora seja incompreensível que a sociedade não possa discutir racionalmente o sismo político em curso ou os erros que foram cometidos. Os comentadores dizem que vem aí o fim do mundo, que a democracia liberal vai acabar, mas o que seria verdadeiramente calamitoso era que a democracia não conseguisse mudar as lideranças que falharam ou que o sistema político fosse incapaz de reagir às imensas transformações que aconteceram e estão para acontecer nas nossas vidas.

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publicado às 19:56

Onde estão as ideologias?

por Luís Naves, em 07.12.16

O extremismo terá pouco espaço no mundo que aí vem, como aconteceu com o totalitarismo no ciclo anterior. A sociedade será pós-ideológica, mas a esquerda terá de compreender que não pode abandonar as suas causas em troca da defesa de identidades minoritárias que recusam a lógica da igualdade. E os sindicatos continuarão a perder influência enquanto forem burocracias que se limitam a defender castas de instalados. A direita, essa, deve abandonar a ideia de que as desigualdades têm uma qualquer relação celeste com as virtudes dos ricos.

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publicado às 20:01

Westworld

por Luís Naves, em 06.12.16

A série de televisão Westworld é uma das mais perturbadoras obras de ficção que tenho visto. Atingiu-se ali um novo patamar na qualidade do argumento e na profundidade das personagens, na complexidade das ideias, na mistura de narrativas e de camadas temporais. Tal como acontece aos turistas humanos que percorrem aquele mundo, o espectador é confrontado com uma imensa teia de possibilidades e julga descobrir elementos que só ele está a ver. A série levantou questões sobre liberdade, memória e consciência, inteligência artificial, limites do humano e da tecnologia, a moderna indiferença, mas sobretudo sobre a impiedade perversa e a manipulação da realidade, dois aspectos da sociedade contemporânea que certamente farão parte do nosso futuro.

Para mim, o mais difícil foi perceber que a nudez e a violência, quando aplicadas a máquinas, não tinham a mesma capacidade de me incomodar do que na circunstância dessas mesmas cenas envolverem personagens que eu considerasse pessoas. Explico melhor: os autores mostraram que os seres que estavam a ser torturados, maltratados ou mortos, de forma cruel, eram máquinas que, no dia seguinte, estariam de novo na sua tarefa de cumprir uma narrativa pré-programada e inflexível, sem memória da dor sentida nas violações, torturas ou homicídios; o destino trágico repetia-se todos os dias, com pequenas alterações resultantes da interacção com os turistas, mas sem livre arbítrio. Nós, espectadores indefesos, ao entrarmos neste conceito, passamos a funcionar como os turistas, estamos a ver o que acontece a máquinas programadas, e não temos a mesma sensação de horror pela violência que lhes cai em cima. A nudez dos robôs nunca é erotismo, mas vulnerabilidade.

Na prática, os autores conseguiram manipular os espectadores, criando um efeito de desumanização dos robôs, que do nosso ponto de vista formam um grupo separado, cuja rebelião, porventura justa, tem os limites da manipulação da realidade que lhes é imposta. Por este mecanismo, aderimos à falta de compaixão que os turistas demonstram. A morte de personagens-pessoas, nesta série, perturbou-nos sempre mais do que a morte (ridícula, grotesca ou gratuita) das personagens-máquinas.

Para onde irá a segunda temporada? Aparentemente (tal como acontecia no filme original) há outros parques temáticos. As máquinas estão a evoluir e tornam-se progressivamente conscientes; vamos talvez estar mais do seu lado, mas os deuses (que somos nós) continuarão a dominar o mundo deles; tudo o que vimos é provavelmente engano, como aconteceu na genial cena pirosa da morte de Dolores, a máquina que resume a ideia da busca da beleza e da liberdade (que define o humano), a robô que possui a centelha da consciência e da vida e que, segundo parece, vai liderar a rebelião. Enfim, seremos turistas neste explosivo e contraditório Westworld, que não é um mundo a preto e branco, daqueles que a televisão nos deu até hoje, onde a gente sabia exactamente onde arrumar o bem e o mal.

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publicado às 20:03

Ruptura e dessacralização

por Luís Naves, em 01.12.16

O nosso mundo é dominado por dois fenómenos que correm em paralelo, a ruptura e a dessacralização. Vemos a tendência da ruptura em notícias diárias sobre rebeliões populistas nas democracias, em delirantes projectos para criar regimes teocráticos ou ainda nas cenas caóticas envolvendo migrações em massa: no fundo, as sociedades contemporâneas não têm soluções para as ‘selvas’, para o ocasional demagogo ou para os delírios homicidas dos fanáticos. Todos estes exemplos estão ligados a mundos em extinção, que não têm resposta para o que aí vem. A dessacralização é menos óbvia, mas está presente na linguagem politicamente correcta que cada vez mais trava as discussões, está também presente na forma algo estranha como instituições conservadoras acompanham os tempos (tentando adiar o seu declínio) surpreendendo os próprios críticos com a ousadia das inovações. A dessacralização garante um lugar na linha do tempo, para além de existir a agressiva corrida à criação de impérios que vão dominar ainda mais o futuro. Por razões tecnológicas, não haverá sobrevivência possível para quem não tiver massa crítica. O que se aplica, aliás, ao jornalismo, à literatura: acabou a era dos autores obscuros que vendiam meia dúzia de exemplares e iam ganhando lentamente a sua fama; hoje, sem garantir escala, ninguém é publicado. Assim será com a televisão, com o teatro e o cinema. Isto aplica-se a todas as elites que dominaram o passado, até em descobertas científicas, que nunca estiveram tão dependentes do dinheiro que permite financiar experiências complexas.

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publicado às 20:11

Em bicos de pés

por Luís Naves, em 14.11.16

Neste magnífico texto, António Barreto escreve sobre as reacções ao resultado das presidenciais americanas e como as discussões políticas são anuladas pela ideia que as esquerdas possuem da sua própria superioridade moral. Pedro Correia observa aqui, também justamente, como ao público português só chegou a informação anedótica relativa à campanha de Donald Trump, que mesmo depois da vitória continua a ser uma espécie de caricatura. Lendo os dois artigos, ninguém pode ficar surpreendido com o anti-americanismo primário que borbulha nas redes sociais.

Alguns dirigentes da União Europeia estão a contribuir para alimentar essa histeria, com a sua reacção de pânico à eleição de Trump, como se o resultado nos EUA fosse o início de um efeito dominó de partidos populistas a tomarem conta do asilo. As elites políticas e mediáticas estavam estranhamente convencidas de que a crise dos últimos oito anos não teria consequências, que nada mudava; elas pensavam que as transformações sociais da última década não teriam impacto em futuras eleições ou na confiança dos eleitores; acreditavam que a insegurança imposta pelo terrorismo não as afectava; julgavam que, para o eleitorado, o medo de perder emprego, casa, poupanças ou a pensão era absolutamente neutro.

O Brexit podia ter sido um momento de iluminação, podia ter mudado esta ideia abstrusa de que é possível continuar a apascentar rebanhos, mas após uns dias de aparente frenesim, a Europa voltou à tendência do marasmo. Agora, agita-se perante o presidente eleito dos Estados Unidos, mas Trump falou primeiro com o Reino Unido, depois com a China, os europeus serão talvez os últimos na fila, esquecidos de que quem grita em bicos de pés acaba por se desequilibrar.

As instituições da UE, lideradas pela Alemanha e França, cometeram graves erros nos últimos anos: na recuperação económica, na gestão dos resgates, no tratado orçamental camisa-de-varas, numa união bancária que não serve para todos, na crise das migrações, no desrespeito dos pequenos países, nas sanções à Rússia (é ridículo andar a proibir exportação de maçãs e depois comprar petróleo). Podia acrescentar-se a escolha de figuras menores para dirigir as instituições, como é o caso de Jean-Claude Juncker.

Esta elite incapaz, protegida por meios de comunicação que há muito emigraram para os territórios de fantasia das redes sociais, devia ser rapidamente substituída, mas os partidos tradicionais estão entrincheirados no discurso do passado, parecem inclusivamente incapazes de fazer modificações internas ou de apresentar políticas alternativas. Qualquer protesto é condenado como dissidência e silenciado com insultos ou colagem à extrema-direita. As opiniões contrárias são atacadas com a superioridade moral da esquerda, das indignações beatas e do politicamente correcto, mas não é desprezando eleitores descontentes que se trava a ascensão dos partidos populistas.

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publicado às 17:08

Tempos de mudança

por Luís Naves, em 08.11.16

À hora a que escrevo, milhões de eleitores americanos estão a votar nas presidenciais mais dramáticas em 16 anos. Hillary Clinton, candidata democrata, representa os interesses das oligarquias, foi apoiada pelos meios de comunicação como nunca antes aconteceu em eleições americanas e dispôs de uma máquina política demolidora que gastou verbas sem precedentes. O seu rival, o demagogo e super-populista Donald Trump, assumiu as dores de Main Street, prometeu travar o século XXI e cavalgou a onda do medo da globalização, numa campanha inédita pela sua agressividade e por dispensar a aristocracia do partido e o dinheiro dos magnatas.

O que espanta nestas eleições é a dimensão do descontentamento na América. Os trabalhadores votam agora à direita e a burguesia está na esquerda. A direita tornou-se anti-comércio livre e a esquerda conta com o apoio entusiástico de Wall Street e da banca (estes estão num pânico, com a perspectiva de vitória de Trump). A imprensa tem tratado os eleitores como um rebanho de deploráveis, mas os deploráveis deixaram de ler o que se escreve sobre eles. Estamos a assistir a uma grande mudança, que não acontece apenas na América, mas um pouco por todo o mundo e à nossa volta. Não é fácil perceber para onde vamos.

Em Portugal, a direita betinha não compreende ainda este possível segundo momento Brexit e a esquerda caviar, apesar de sentir que lhe roubaram temas queridos, tem uma reacção pavloviana de quem vê outra vez o fascismo a chegar, ou pior. Os nossos meios de comunicação fizeram uma cobertura pobre, parecia que também votávamos, e só houve espuma, opiniões superficiais e frases fora de contexto. A eventual vitória de Trump, que ainda é possível, não terá qualquer explicação para quem tenha seguido apenas os meios de comunicação nacionais.

Se Trump vencer no Ohio, Carolina do Norte, Flórida e Arizona fica próximo de uma surpresa que pode mudar muita coisa na ordem política mundial, pois este candidato representa a tendência isolacionista na América. Clinton tem um caminho mais fácil, basta-lhe vencer um destes quatro estados para acabar com a corrida do adversário. Ohio e Pensilvânia podem ser decisivos, dois estados da cintura da ferrugem onde muitas pessoas perderam os seus empregos ou as suas casas durante a Grande Recessão, para verem depois os políticos a salvarem bancos e campeões da indústria, cujos resgates implicaram despedimentos em massa.

No fundo, é esta a questão: onde meter o descontentamento e como combater a sensação de declínio? Muitos eleitores não confiam nos políticos e partidos tradicionais, querem mudança a sério e votarão em quem pareça capaz de reconhecer as feridas da crise. As desilusões pagam-se caro e os vencidos da globalização pensam que estão a ser manipulados. Se, cumprindo o cenário mais provável, Clinton for eleita dentro de algumas horas, ela será uma presidente impopular e muito activa em intervenções externas, com imagem de corrupta e perseguida por escândalos. Não lhe será fácil insistir na mensagem das elites a favor das políticas de mais do mesmo.

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publicado às 16:47

Os fantasmas

por Luís Naves, em 29.10.16

Entre os grupos que se passeiam ao sol feliz do Outono tépido, encontramos os fantasmas. São figuras trágicas que, com certa dose de crueldade, classificamos mentalmente como cromos, por não terem coisas para fazer, por estarem tão obviamente fora da existência normal, por não serem como nós e por viverem assim, esfarrapados e no alheamento. Um deles aproxima-se, mal vestido e sujo, os sapatos rotos, as calças demasiado compridas, no fio, a dançarem no chão. Tem umas madeixas de cabelo a taparem mal a sua confusa cabeça. Investiga brevemente um caixote do lixo. Tal como os outros fantasmas, traz um vistoso saco de plástico, que leva com orgulho, através das margens do grande rio da sociedade. Este também fala sozinho, em longas conversas, como fazia o que encontrei atrás e que costumo ver num centro comercial, a esforçar-se por andar bem vestido, mas visivelmente solitário e com a sua vida parada algures num passado que já só existe em recordação. Hoje, estava apenas a ver passar o mundo, mas geralmente faz pequenas tarefas de vigilância, deixam-no andar por ali, no centro comercial, por ter um ar decente, mas, no fundo, é como os restantes, os que percorrem cenários como personagens em busca de uma deixa e nós, os espectadores, olhamos com divertimento para a interrupção que eles fazem na história, rimo-nos mentalmente, quer dizer, nisso somos civilizados, o nosso riso é puramente mental e acompanhado imediatamente de uma vaga culpa, pois também temos sentimentos e também nos emocionamos com as desgraças televisivas, sobretudo as mais distantes e que estão devidamente arrumadas em narrativas com princípio, meio e fim. Não é o caso destes cromos, pelo contrário, aqui o que sabemos deles? Porque pararam estas vidas? Quem são estas figuras tristes e qual o motivo de se atravessarem tão abruptamente no nosso dia tranquilo?

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publicado às 19:24


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