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Então, para que estamos a lutar?

por Luís Naves, em 25.08.13

Mr. Brown, em Os Comediantes, tem razão. A frase que atribuo a Winston Churchill no post anterior é provavelmente apócrifa. Li-a pela primeira vez num artigo de opinião em The Guardian, onde uma autora cujo nome não recordo criticava cortes na despesa da cultura no Reino Unido. Estava em causa a realização de um festival de literatura de grande reputação e a frase (que reforçava um argumento semelhante ao meu) era atribuída a Churchill em resposta a um general, não ao ministro das finanças, como surge noutras fontes.
É claro que isto não muda nada na discussão. No livro mais importante da civilização ocidental há inúmeras frases atribuídas a Jesus Cristo que nos encantam pela sua inteligência mas que não temos a certeza de terem sido proferidas. Para um não crente, pouco importa se Cristo as disse, a sabedoria das palavras vale por si e não é preciso ser cristão para as compreender.

Estamos num dos meus temas favoritos, a fronteira entre factos e ficção, e ocorre-me a frase do filme de John Ford O Homem que Matou Liberty Valance: “Quando a lenda se transforma em facto, publique-se a lenda”. (Espero desta vez ter citado correctamente; vi este filme num ciclo organizado pela cinemateca, com outras dezenas de grandes obras que fazem parte do meu imaginário e que agradeço à instituição).

 

O que é então essencial na discussão? A meu ver, “Então, para que estamos a lutar” é uma pergunta que devemos repetir sempre que defendemos cortes na despesa pública e a reforma do Estado, como é o meu caso.
Já escrevi, no post anterior: não quero viver num país com Alzheimer. Enquanto a população portuguesa se alimenta de futilidades que confunde com cultura, a nossa elite fala em inglês e extasia-se com a arte feita lá fora, desprezando o que não pareça suficientemente vanguardista e obscuro. No fundo, ainda não conseguimos sair de um provincianismo que nos paralisa e, em cada momento, vivemos um pouco mais desmemoriados e desistentes.

Portugal gasta pouco dinheiro no sector da cultura e nas comparações europeias faz fraca figura na música, no teatro, na ópera ou no cinema. Esta também é uma medida do nosso atraso. A competitividade não se vê só nas empresas e a projecção de uma nação não se faz apenas com propaganda turística. Não podemos competir com a Albânia nesta matéria.

Estas coisas parecem pouco importantes quando há um milhão de desempregados e cortes nas pensões dos nossos pais, mas não são irrelevantes. Sendo a cultura um sector negligenciado no orçamento, então os cortes deveriam tentar compensar um pouco essa negligência, centrando-se nas grandes despesas, aquelas que nos dão problemas estruturais.
Portugal tem de concluir um ajustamento penoso que implica o seu empobrecimento e as instituições de cultura não podem ser excluídas do esforço nacional. Por outro lado, os grupos de pressão que no passado se apropriaram de uma boa fatia do orçamento da cultura terão de ser olhados de forma mais crítica. Concordo com tudo isso, mas não aceito simplificações do problema. Estas instituições já eram subfinanciadas e sofreram cortes de 20%.
A partir de certo grau de corte, a casa fica vazia ou sem tecto, ou sem chão ou sem janelas. A reforma do Estado pode eliminar organismos em que haja duplicação de funções, modernizar o funcionamento das repartições, dispensar trabalhadores que as novas tecnologias tornaram redundantes. Mas essa reforma do Estado não pode destruir as instituições que guardam a memória nacional. Não pode haver meio laboratório, nem meia cinemateca, nem meia orquestra, nem meia universidade, nem meio teatro, nem meia biblioteca. Ou há ou não há. Um corte de 20% que impeça o funcionamento de uma instituição pode significar o desperdício total dos outros 80%, pois a instituição deixa de poder funcionar. E quando isso acontece, a perda de memória torna-se irreversível. Não é como na repartição de finanças, corta-se para metade e continua a funcionar, embora só cobre metade da verba.
Há quem salte depressa para a conclusão de que os responsáveis da Cinemateca estão a fazer uma espécie de chantagem. Pode ser, mas e se tiverem razão? E se existe um perigo real para o nosso património cinematográfico? Não estará o País em risco de perder muito mais do que aquilo que poupa?

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publicado às 17:55



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