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O sonho e a barbárie

por Luís Naves, em 22.08.13

A direita liberal portuguesa tem uma relação difícil com a cultura. Na óptica de alguns autores, o mercado devia ser suficiente para financiar os artistas e, se a sociedade faz sacrifícios, então o património artístico também os deve fazer. A tese está subjacente neste texto de José Manuel Fernandes, em Blasfémias, onde o autor critica as notícias sobre a crise orçamental na Cinemateca. A ideia é a seguinte: a instituição depende das verbas da publicidade e estas estão a diminuir; outras empresas, sobretudo na comunicação social, também perderam publicidade e adaptaram-se, pelo que a Cinemateca pode fazer o mesmo; o autor lamenta que os jornalistas não tenham referido o paralelismo entre a sua própria situação e a da Cinemateca.

 

A direita portuguesa devia meditar numa história famosa de Winston Churchill. No início da II Guerra Mundial, quando Londres estava sob bombardeamento nazi, o governo britânico discutiu cortes na despesa para aumentar a produção de armas e um general sugeriu que se cortasse totalmente nos gastos da cultura. Houve um silêncio e todos se viraram para Churchill. Este mordeu o charuto, pensou um pouco e respondeu: “Então, para que é que estamos a lutar?”
Esta devia ser a pergunta que todos os que defendem contas públicas saudáveis deviam fazer. A liberdade contra a barbárie. Falo por mim: estou a lutar por um Portugal que preserve a sua alma e construa o melhor futuro. Não quero viver num País com Alzheimer e onde se puxa da pistola mal soa a palavra cultura.

 

Os cortes na despesa são possíveis, mas não devem ser cegos nem estúpidos. Encerrar instituições como a Cinemateca não é opção. Cortar nas despesas a ponto desta instituição não poder funcionar também não é solução. Criar ‘nichos de negócio’ que destruam a sua missão é um disparate.
A Cinemateca é uma instituição cultural que não pode de maneira nenhuma dar lucro. Ela protege o património acumulado de um século de cinema nacional e o Estado tem obrigação de proteger todo o seu património. Para mais, a nova lei do cinema tem recursos suficientes para resolver este problema.
É evidente que existem abusos nos subsídios da cultura, com dinheiro público a pagar espectáculos de duvidosa qualidade, mas essas são pequenas anedotas que por vezes impedem as pessoas de ver o essencial: um país europeu tem de manter museus, orquestras, bibliotecas, teatros, ou não será europeu. Estas instituições são um património onde se contém parte importante da alma nacional. Sem memória, não há futuro e, sem futuro, para quê lutar?

 

Estamos a falar de escolhas. A preservação das instituições culturais deve ser uma preocupação central, sobretudo em situações de crise. A direita portuguesa tem dificuldade em compreender isto, mas a esquerda também comete um erro, ao colocar no mesmo patamar o financiamento das instituições e o das vanguardas. Se temos de fazer escolhas, então o dinheiro escasso deve ir para a preservação da memória em instituições vivas. Encerrá-las ou deixá-las definhar implica a perda do conhecimento que só o funcionamento contínuo permite. Os cortes burocráticos são pequenos crimes de governantes que pensam estar perante uma banal repartição da administração, sem qualquer noção sobre a complexidade da cultura e das instituições que a servem. 

A discussão é vasta, mas falta referir um pormenor. A crise da comunicação social não tem apenas a ver com a redução das receitas publicitárias, mas também com uma transformação tecnológica que mudou a natureza do negócio. As empresas tentaram adaptar-se ao novo ambiente, mas muitas não vão sobreviver, podendo surgir outras em seu lugar. A morte de um jornal é património dissipado e o Estado podia preocupar-se com isso, pois um País sem memória não tem espessura e, no máximo, viverá um futuro amargo e sem alma. Mas a Cinemateca não é um jornal, é um museu, e os jornalistas que escreveram a notícia perceberam correctamente que a analogia com o seu caso não era possível.

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publicado às 12:21



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