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O Esplendoroso Declínio (3)

por Luís Naves, em 11.08.13

Doutrina Sinatra
A Cortina de Ferro que dividiu o continente parecia sólida, simbolizada pela alta segurança do Muro de Berlim, mas o império soviético tinha limitações, nomeadamente o sistema económico pouco eficaz, que contrastava de forma demasiado evidente com a riqueza nos países ocidentais.
As ditaduras socialistas não podiam impedir a circulação de ideias e, com o tempo, estabeleceu-se uma esquizofrenia nas sociedades do leste europeu: toda a gente sabia que os discursos eram vazios e, secretamente, os cidadãos queriam democracia e pluralismo político. Os regimes estavam podres e as populações altamente insatisfeitas. A aliança militar do Pacto de Varsóvia era na realidade um mecanismo imperial (soviético) e o mercado comum (COMECON) a imposição que lesava os interesses dos países mais produtivos.
O distanciamento entre dirigentes e dirigidos agravou-se ao longo da década de 80, quando os líderes do partido único envelheceram e as economias socialistas começaram a estagnar, incapazes de satisfazer as ânsias de consumo da população. Os media burgueses ouvidos na clandestinidade ou as viagens ocasionais expunham os cidadãos do leste à abundância ocidental. Era o segredo mais conhecido da História: toda a gente sabia que os ocidentais eram muito mais ricos. Em 1989, estas contradições chegaram à superfície, sobretudo na Polónia e Hungria, onde ao longo da Primavera houve movimentações de política interna que já anunciavam o grande colapso do sistema.

  

O momento culminante ocorreu a 19 de Agosto desse ano, quando uma pequena multidão de alemães-orientais se dirigiu de forma espontânea a um local da Hungria chamado Sopronpuszta, nos arredores da cidade fronteiriça de Sopron, onde dois meses antes os ministros dos negócios estrangeiros húngaro e austríaco tinham simbolicamente cortado o arame farpado da fronteira, naquela que foi a primeira interrupção física da ‘cortina de ferro’.
Os alemães orientais tentavam entrar numa festa sem convite e não sabiam ao certo o que iria acontecer. Otto Habsburgo (eurodeputado alemão e herdeiro da família imperial austríaca) organizara para aquela data um piquenique envolvendo a população de duas aldeias, uma húngara a outra austríaca. A confraternização devia ser simbólica, de camponeses e vizinhos, mas um rumor espalhou-se entre os turistas alemães-orientais: haveria a oportunidade de fugir para ocidente. A Hungria era um popular destino para o turismo alemão, pois as famílias separadas pela cortina de ferro encontravam-se durante o Verão nas margens do lago Balaton.
Em Sopronpuszta, a fronteira transformara-se numa simples cancela sem guardas armados e os turistas, num gesto espontâneo, limitaram-se a puxar a barreira, enquanto os polícias austríacos e húngaros olhavam, incrédulos. Depois, foi o caos: as pessoas correram, atropelaram-se e em menos de cinco minutos tinham escapado 600 alemães orientais na direcção da Áustria. Existem poucas fotos do acontecimento, talvez por isso este momento crucial da História da Europa seja raramente mencionado. No entanto, e apesar do esquecimento nas cronologias, o episódio foi o catalisador de um processo mais complexo, que mudou o mundo.
A 23 de Agosto, foram removidas todas as barreiras na fronteira austro-húngara e milhares de turistas alemães fugiram para ocidente, em vários pontos, evitando dessa forma a travessia impossível do Muro de Berlim; nos dois meses seguintes, a fuga estendeu-se a outros países do COMECON. As embaixadas da República Federal da Alemanha em Praga e Varsóvia encheram-se de refugiados.


O processo da Queda do Muro foi acelerado por outro acaso que ninguém poderia antever. O regime alemão oriental enfrentava uma crise difícil e o governo organizou briefings diários. Num deles, o porta-voz, Gunter Shabowski, explicou de forma ambígua uma instrução mal esclarecida, na prática declarando a passagem livre em Berlim para essa mesma noite. Isso implicou a destruição imediata do muro e o fim da Guerra Fria. Foi a 9 de Novembro de 1989.
O porta-voz do ministro dos Negócios Estrangeiros soviético (futuro embaixador da Rússia em Portugal), Gennadi Gerasimov, dera o mote a 25 de Outubro, ao anunciar aquilo que definiu como a “Doutrina Sinatra”. A ideia de que cada país tomaria as suas decisões foi associada à canção My Way, de 1969, que tem versos como “I did it my way”, mas também “regrets, I had a few” ou “the end is near”*.É ainda hoje um dos grandes clássicos de Frank Sinatra, com uma ressonância política adicional que ficará ligada à História da Europa.
Nos dois anos seguintes ao anúncio da doutrina Sinatra tombaram os regimes totalitários e ruiu o império soviético. Houve revoluções de veludo e eleições, desapareceu o Pacto de Varsóvia e várias repúblicas separaram-se da URSS. Ainda hoje surpreende a aparente facilidade e sobretudo a rapidez da implosão socialista.

 

*Em tradução livres as frases significam "Fiz tudo à minha maneira"; "lamento poucas coisas"; "O fim está próximo"

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publicado às 14:42



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