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Enigmas e copo meio vazio

por Luís Naves, em 08.08.13

As interpretações jornalísticas dos números do desemprego e a queda da respectiva taxa de 17.7% para 16,4% foram quase unânimes na desvalorização dos dados do INE. Alguns jornalistas chegaram a transformar a diminuição do desemprego numa má notícia.
A imprensa costuma simplificar, ignorando o ponto central destas estatísticas, o emprego, se ele está a ser criado ou destruído, se houve alterações na distribuição educacional e regional das pessoas empregadas. Olhando para os números verificamos que no segundo trimestre de 2013 foram criados 70 mil empregos, contrariando a tendência de cinco anos e que se cifrou na destruição de postos de trabalho a ritmo de cem mil por ano.
A inversão da tendência é inexplicável, mas os jornalistas saltaram para a explicação fácil, a da sazonalidade. Ora, entre o primeiro e o segundo trimestres de 2012, a taxa de desemprego subiu, de 14,9 para 15%. A sazonalidade, neste caso, representou um abrandamento na destruição de emprego, mas ela prosseguiu. Onde se perdiam 8 a 10 mil empregos mensais, passaram a perder-se algumas centenas. Ora, a sazonalidade de 2013 não teve abrandamento na destruição de postos de trabalho, mas a sua criação a ritmo superior a 20 mil por mês. Que raio de sazonalidade é esta?

 

Poucos analistas têm mencionado um fenómeno ainda sem explicação que ocorreu no último trimestre do ano passado e no primeiro deste ano: refiro-me ao súbito aumento da destruição de emprego em Portugal. Basta referir que entre Outubro e Dezembro do ano passado foram destruídos 130 mil empregos e até Março deste ano mais 100 mil.
Durante cinco anos, a economia portuguesa perdeu trabalhadores activos a ritmo regular (mais de meio milhão no conjunto do período), o que se explica pela baixa competitividade, mas de repente esse ritmo quadruplicou e atingiu um volume brutal, que colocou no desemprego 230 mil pessoas, em vez das previsíveis 60 mil. Terá sido fruto da liberalização das leis laborais ou das reestruturações todas ao mesmo tempo? Nunca li uma explicação convincente. O certo é que este fenómeno atingiu de forma desproporcionada pessoas com baixo nível educacional, trabalhadores da indústria e dos dois grupos etários entre os 25 e os 44 anos.

 

Os recentes números do INE mostram que este processo terminou e que terá mesmo sido parcialmente corrigido. Os 70 mil empregos criados parecem ser precários e são de baixa e média qualidade, um terço no escalão de habilitações mais básico e dois terços no médio. Na sua maioria, os novos empregos surgiram na agricultura, mas também nos serviços (a indústria continua a perder trabalhadores). Há trabalho a prazo, mas também trabalho por conta própria. A taxa de desemprego diminuiu em todas as regiões.
Tudo aponta para a presença de um fenómeno de sazonalidade, mas sem que este possa explicar inteiramente o que sucedeu. O emprego jovem aumentou, o que talvez se explique pelas modificações do programa Impulso Jovem, iniciativa de Miguel Relvas que na altura todos ridicularizaram, mas que apresenta os primeiros resultados.
Em três meses, a taxa de desemprego baixou de 17,7% para 16,4% e o número de trabalhadores aumentou em mais de 70 mil (algo de inédito pelo menos desde 2007). Isto foi conseguido com a economia estagnada ou com crescimento económico muito baixo, não se sabe ainda.
As explicações jornalísticas superficiais chegaram facilmente à conclusão de que isto só pode ser mau, mas a imprensa portuguesa habituou-se a ver o copo meio vazio. Na realidade, tudo isto devia ter exigido a máxima prudência na análise, pois é quase certo que houve uma mudança qualquer, pelo menos já não estamos a cair no abismo.  

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publicado às 12:00


1 comentário

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De Nuno Matos a 08.08.2013 às 19:52

Caro senhor:

Começo por lhe dizer o quanto apreciei o seu comentário, Compreendo a surpresa e a necessidade de encontrar explicações plausíveis. Uma delas será a sazonalidade, embora no caso grego, o desemprego tenha aumentado. Sem me tomar muito a sério, eu acrescentaria outra coisa: a aprovação da lei das rendas foi um grande golpe para pequeno comércio urbano, em grande parte constituído por pessoas com baixo grau de instrução, que tinha na quase gratuitidade das suas rendas, a principal vantagem competitiva. Ora, é bem visível em Lisboa como no resto do país, a sua substituição por um comércio mais sofisticado. Dito de outra forma, no final do ano passado, aquando do balanço, muitos pequenos estabelecimentos familiares encerraram, havendo-se assistido à sua substituição ao longo deste ano de 2013. Será?

Aceite os meus cumprimentos.

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