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Casas de xisto

por Luís Naves, em 05.08.13

O poeta Carlos Drummond de Andrade começa um dos seus poemas, muito simples e belo, com o verso “a meio do caminho tinha uma pedra” *. Em poucas palavras sentimos todo o mistério do próprio caminho, pois o que ficou para trás não tem a consistência física daquela pedra e é como se já pertencesse ao efémero universo da imaginação.

Não sei o que me leva a pensar nisto, pois na nuvem imprecisa que se forma na minha memória, naquele limbo entre sono e matéria, surge no estrato mais antigo uma árvore, a figueira do meu avô, lembrança que pertence a um mundo extinto, onde todos os objectos têm tonalidades pálidas, saídas de velhas fotografias a preto e branco.

A figueira é uma das minhas primeiras memórias. Sei que ela ainda existe e a sua alma ainda vive.

 

Naquele tempo, era eu pequeno, a camioneta da carreira penava nas estradas de macadame, a levantar poeira lenta. As estradas serpenteavam por montes verdejantes, cobertos de pinhais e lembro-me do meu espanto a ver como o vento assobiava no topo do arvoredo, criando uma espécie de onda, como havia no mar, só que verde e vagarosa.

As aldeias cheiravam a pobreza, mas ainda havia gente dentro das escuras casas de xisto. Não se vestiam como as pessoas da cidade, mas com roupas estranhas. Os telhados de pedra largavam fumo. Os pássaros paravam, atentos, cada qual no seu ramo, à sombra das folhas. Ao longe, ouvia-se a conversa das ovelhas e o resto das coisas silenciosas que desciam pelas encostas solares e iam até à lonjura da outra margem do vale, até às povoações perdidas pelos socalcos da serra, das quais só víamos um campanário de igreja ou a brancura dispersa, empoleirada nas fragas.

 

O avô vivia sozinho na casa caiada de branco e que agora se encontra em ruínas. Em frente, havia um largo acanhado, com um marco de correio vermelho, pintado de forma tão berrante que parecia um grito de alguém de fora.

Não me recordo de muito mais do que isto. Lembro-me dos olhos azuis do meu avô e da serenidade da grande figueira, cuja sombra, ao fim dos dias, era projectada na casa. E a árvore largava um aroma doce e ali estavam pendurados os frutos que eu desconhecia, grossos em baixo, moles, suculentos. Foi o meu avô que me ensinou a comer aqueles assustadores figos, que até aí apenas vira secos, com a pele mumificada e castanha.

A transformação foi, para mim, um verdadeiro mistério. Nunca me ocorrera sequer o pensamento de que um fruto pudesse mudar de forma, mas era uma criança da cidade e nada sabia do campo e até hoje tenho dificuldade em suportar a quietude desses lugares desaparecidos. Aliás, vendo bem, naquele tempo não podia saber que o mundo se transformava constantemente. Pela minha cabeça de criança, então apenas encantada com a diversidade da vida, não passava a ideia deliciosa de que, no momento de olhar para trás, atingido o meio do caminho, apenas veria metamorfoses naquilo que testemunhei e naquilo que fiz.

Não digo que haja uma pedra a meio, mas antes houve numerosas pedras curiosas e histórias que certamente não recordo da maneira exacta como ocorreram. O mesmo se pode dizer desta lembrança indistinta da aldeia vazia e da figueira, que ainda me parece uma árvore gigantesca.

O passado é geralmente um lugar silencioso, mas quando começamos a escutar, ouvimos também os seus murmúrios mágicos e tristes. a sua poesia.

 

* O poema de Drummond pode ser lido aqui

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publicado às 19:43



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