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O Esplendoroso Declínio (2)

por Luís Naves, em 02.08.13

Herdeiros
A Europa em que vivemos é herdeira da Comunidade Económica Europeia (CEE), cuja integração já acelerava na altura da queda do Muro de Berlim. Correspondendo aos países da Europa Ocidental, aos quais se tinham juntado três ex-ditaduras do sul, a CEE tinha fortes incentivos para aprofundar a coesão económica e política. O motivo mais evidente era a ameaça soviética, contrariada pela forte presença militar americana em solo europeu. Os mísseis nucleares de curto alcance estavam apontados a cidades pacíficas e os jogos de guerra mostravam a impossibilidade de impedir a destruição dos principais alvos civis, não sendo de admirar que uma das preocupações fundamentais dos anos 70 e 80 fosse a de conceber políticas de apaziguamento.
Para além desta sombra permanente, o impulso da integração resultava em grande parte da memória da última guerra, que provocara terrível devastação em toda a Europa Central. Em 1945, os países europeus estavam em ruínas. A França era uma potência sem influência externa e atormentada pelos fantasmas da derrota de 1940 e da colaboração com os nazis; a Alemanha estava dividida em duas partes e carregava a culpa ainda fresca do Holocausto; o Reino Unido era um império falido, incapaz de manter as suas jóias coloniais; Itália ou Espanha estavam exangues e tinham zonas de grande miséria. Vários pequenos países escaparam quase incólumes, como Portugal, Suécia ou Suíça, mas a guerra deixou a Europa de joelhos.

A outra metade do continente ficou na esfera soviética e integrou o bloco socialista. Estes regimes não tinham autonomia face a Moscovo e a elite comunista era incompetente, corrupta e mal preparada. Foram constituídas repúblicas populares e sufocadas as tímidas tentativas de democratização. A Polónia, um dos países vencedores do conflito, terminou a guerra na situação de grande derrotada, transformada em satélite da URSS e com perdas de seis milhões de pessoas, um quinto da população; Nessa altura, podia afirmar-se que não havia nenhum futuro brilhante para os europeus, quer fossem polacos, franceses ou espanhóis.


 

No entanto, estes países tinham a saída do comércio e da coordenação em domínios como agricultura, indústria e ciência. Os anos 50 foram sobretudo marcados pela ameaça nuclear, a descolonização e a criação do Estado Providência, mas também pela reconstrução. Houve uma espécie de consenso em investir na educação e criar sistemas universais de segurança social e de saúde. Provavelmente foi isto que salvou a Europa de um declínio mais acentuado e prematuro.

Na década de 60, as taxas de crescimento económico foram brutais, a ponto de se falar em milagre, mas a Europa continuou dividida por uma fronteira militarizada; os governos de ambos os lados eram frágeis ou tinham de fazer grande esforço para se demarcarem da lógica das duas superpotências. A pequenez política da Europa ficou bem clara em 1956, com a Crise do Suez e a humilhação militar franco-britânica. Franceses e britânicos tinham uma consciência clara da sua insegurança, como mostra a sátira que ilustra este texto. Ao mesmo tempo, do outro lado da cortina, foi esmagada a revolução húngara, numa tragédia nacional que provou não haver lugar a sonhos de verdadeira independência.
Esse ano foi importante para mudar as mentalidades. Os europeus de 1956 acordavam num mundo muito diferente daquele que os seus avós tinham conhecido, quando, no final do século XIX, os principais impérios europeus controlavam 70% do planeta e 80% da economia global. Acabara essa Europa que inventara e aplicara as invenções industriais e militares, as ideias políticas e científicas, a alta cultura sofisticada. E, agora, mal saídos das filas de racionamento, os europeus descobriam que os impérios onde muitos deles tinham nascido e que pareciam eternos já não passavam de fantasmas obsoletos, ignorados pelas duas superpotências.

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publicado às 11:27


1 comentário

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De l. rodrigues a 02.08.2013 às 12:16

Leitura recomendada:

ReOrient, de Adré Gunder Frank

http://rrojasdatabank.info/agfrank/reorient.html

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