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Hipócritas ao meio-dia

por Luís Naves, em 01.08.13

Há um western popular do início dos anos 50, High Noon (O Comboio Apitou Três Vezes), cujo tema é a hipocrisia de uma pequena comunidade. A história resume-se facilmente: são onze horas e no comboio do meio-dia regressa o chefe de um bando que jurou vingar-se daqueles que o mandaram prender; na estação, é esperado por três cúmplices; e, na cidade, com os diálogos a avançarem em tempo real, todos viram as costas a um xerife que, sozinho, terá de enfrentar os quatro rufias.
O actor principal, Gary Cooper, não é dos meus favoritos, incapaz de uma gama de emoções que ultrapasse uma faixa estreita. A sua mulher é interpretada por Grace Kelly, de rara beleza, mas também impassível. O argumento tem vários erros lógicos e nunca percebemos a motivação de pelo menos três personagens que poderiam facilmente ajudar o xerife. Os autores do filme quiseram fazer uma metáfora do macartismo e a tentação da tese não resistiu ao tom moralista.


Embora tenha pontos interessantes, O Comboio Apitou Três Vezes (apita umas cinco ou seis) possui o mérito inegável de abordar um tema espinhoso. Os hipócritas são geralmente mais subtis e as situações em que actuam são menos evidentes do que naquele caso a preto e branco, onde os interesses vitais da comunidade parecem estar sob ameaça e seriam protegidos pelas massas, por definição imbatíveis.
Ali, é o medo da morte que produz a hipocrisia, e digamos que se trata de um motivo forte. Os amigos do xerife vão desertando para preservarem a própria vida. Os autores, sem tanto a perder, ousam criticar.


 

Os hipócritas movem-se por interesses mais mesquinhos, sendo geralmente a preservação do seu estilo de vida o que está em causa. Há sempre pretextos e, de facto, aos seus olhos é o xerife quem tem a culpa, sendo a fuga deste a solução evidente. No plano metafórico, o filme é certeiro, embora à custa da credibilidade das personagens, uma das quais afirma, de forma demasiado sensata, que as pessoas gostam muito da justiça, mas nunca lutam por ela.
O enredo tem múltiplas falhas, pois aquelas personagens não fariam coisas tão cobardes e tentariam enganar o pobre do xerife, simulando estar no combate. E o simples engano daria origem a uma multidão suficiente para enxotar os vilões sem um único tiro disparado. Esta sequência da história seria muito mais adequada para metáfora da América.


A hipocrisia existe na medida em que seja possível encontrar justificações para os subterfúgios a que as pessoas se dedicam quando querem escapar às responsabilidades. Dito de outra forma, e usando o filme, os hipócritas não estão verdadeiramente interessados nos quatro bandidos, mas no xerife. Ele é o problema e deve abandonar o local, sair de cena, enquanto é tempo, pois ninguém quer ficar com o ónus de ter contribuído para a sua morte. O gesto de desafio de quem resiste é o maior desafio às vidas confortáveis daqueles que já desistiram, por isso ele tem algo de subversivo.
Neste ponto, os argumentistas voltam a falhar, pois a comunidade tudo faria, incluindo a violência, para se livrar do xerife, sendo que isso só acontece numa cena e com uma personagem cuja credibilidade para o gesto é mínima.
A questão da responsabilidade também é importante e, neste ponto, o filme atinge o alvo. No método mais comum em hipocrisia política altera-se a noção da responsabilidade individual e colectiva. É mais fácil a omissão após elaborar o argumento de que agir não é o nosso dever. Os hipócritas mais sofisticados provam inclusivamente que o nosso dever está na não acção.

 

Por tudo isto, a hipocrisia é um tema difícil. Ninguém lhe pode escapar, pois a vida não tem apenas causas grandiosas. Cada pessoa é confrontada muitas vezes com a necessidade de escolher se entra ou não numa luta minúscula que pode ter ganhos incertos e custos elevados. É fácil mentirmos a nós próprios, na ânsia de encontrarmos desculpas para as nossas limitações. As circunstâncias exigem-nos muitas vezes sacrifícios que não podemos fazer. São geralmente pequenos assuntos, envolvendo regalias que associamos aos nossos direitos, dos quais não abdicaremos por trivialidades. Depois, gastamos tempo a procurar evasivas que justifiquem a escusa. E dizemos, intimamente, que não podemos ir a todos os combates, que nos devemos reservar apenas para alguns, poucos, o menos possível.

A hipocrisia é um adiamento da coragem e a adesão ao bom senso da maioria. Para não se comprometer, a pessoa negoceia o meio-termo que permite o conforto da companhia das massas.
Há também um elemento de desprezo em relação aos que resistem. Chamam-lhes ingénuos, têm-lhes inveja e muita satisfação quando a derrota é consumada.

Enfim, todos estes dilemas são visíveis naquela hora em que decorre a acção do filme. Depois, surge o desenlace à maneira de Hollywood. Gary Cooper, bem penteado e sem emoção no rosto, abraça o iceberg Grace Kelly e caminha na direcção do horizonte. A duplicidade e o fingimento são derrotados, mas claro que isto é só nos filmes. Na vida real, os xerifes perdem sempre e são lembrados com saudade.

 

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publicado às 13:16



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