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Este texto foi publicado no Geolitico, um site alemão semelhante ao Huffington Post. Na tradução para português fiz algumas adaptações menores.

Os comentários mais hostis vão no sentido de defender a imediata saída de Portugal do euro, ideia que tento sempre contrariar, pois seria provavelmente a nossa ruína. O texto foi escrito antes do acordo de coligação na Alemanha.

Segue o artigo:

 

 

Existe uma dança popular ibérica chamada fandango com uma variante portuguesa que consiste em dois homens a dançarem no mesmo sítio. O dançarino principal está imóvel, excepto os pés, que fazem uma espécie de sapateado. A música é minimalista e o segundo dançarino encontra-se um pouco atrás do primeiro, a fazer um movimento simples, enquanto espera a sua vez. Depois, trocam. O primeiro dançarino vai para trás e o outro desafia-o com o seu próprio sapateado. Este desafio pode parecer dramático, mas o fandango é aborrecido, pois nada parece mudar, à excepção dos rápidos movimentos dos pés.
O fandango é uma boa metáfora da política portuguesa. O movimento e a música são sempre semelhantes e a coreografia não tem nada a ver com a criatividade de Fred Astaire.
Vemos sempre variações da mesma dança. Por exemplo, o centro-direita, em Portugal, tem um problema que se arrasta há mais de um ano: precisa de defender um dos governos mais impopulares de sempre. O centro-esquerda também está em dificuldades, pois precisa de atacar este governo sem provocar a sua queda antes de Junho (isso levaria provavelmente ao segundo resgate). Muitos na esquerda defendem novas eleições, mas trata-se da repetição daquilo que disseram há três meses e há dez meses. Querem também o fim da austeridade, mas nunca explicam como.
Há, apesar de tudo, uma mudança subtil na música. Alguns intelectuais começaram recentemente a defender que o País deve discutir a saída do euro. É ainda uma opinião rara. A discussão, na realidade, não é sobre a moeda única, mas sobre a Europa. Uma parte da elite intelectual do País nunca se convenceu dos méritos da integração europeia. Agora que Portugal é governado por estrangeiros o argumento contra a Europa é mais fácil de defender.

 

Estás sozinho, amigo
As razões contra abandonar a Europa são tão fortes que a ideia não tem pernas para andar. Por outro lado, e em teoria, sair da zona euro solucionaria os problemas: com a desvalorização imediata do escudo, a economia seria mais competitiva, teríamos mais exportações, os salários cairiam com a inflação, haveria mais investimento a criar empregos.
No mundo real, a situação seria bem diferente. Como tentei explicar num texto anterior no Geolitico, em Portugal as pessoas são geralmente proprietárias das casas onde moram (não existe mercado de arrendamento). A classe média iria enfrentar um rápido e ruinoso aumento das taxas de juro. As consequências políticas seriam gravíssimas, pois os bancos ficariam em grandes dificuldades e a classe média literalmente a viver na rua. O risco da crise alastrar para outros países (Espanha e Alemanha) seria enorme. Assim, Argentina 2001 não parece ser uma boa solução.
Que tal a Irlanda? Os irlandeses decidiram não aceitar por enquanto uma linha de crédito no âmbito de um Programa Cautelar. Esta saída do resgate é arriscada. Nos próximos dois anos, a Irlanda precisa de taxas de crescimento económico muito altas e as coisas podem correr mal nos mercados. O governo português esperava que Dublin negociasse um programa cautelar que servisse de modelo para os outros países sob resgate. Lisboa só teria de aceitar as mesmas condições, mas agora este plano tão bonito jaz em ruínas. Estamos sozinhos na questão.
Portugal não conseguirá sair do resgate sem ajuda. Irlanda e Portugal têm dívidas públicas semelhantes (respectivamente 124 e 127%  do PIB) e o défice estrutural português é muito inferior ao irlandês (3,7 contra 6,7), mas a Irlanda espera já no próximo ano uma expansão económica de 1,7% do PIB, enquanto Portugal só terá uma subida de 0,8%. Seis meses antes de terminar o resgate, as yields das obrigações irlandesas a 10 anos estavam nos 3,5%. O mesmo indicador para Portugal é de 5,8%. Não nos poderemos financiar a este preço e escapar a um programa cautelar é quase impossível. Teremos de o negociar sozinhos.

 

Houston, we have a problem
O pior é que ninguém sabe exactamente em que consiste um programa cautelar. Isso significa provavelmente que as negociações vão depender do próximo governo alemão. A opinião pública apenas sabe que o programa dura um ano e implica um crédito de 10% do PIB, 16 mil milhões de euros, no máximo.
A boa notícia é que Portugal poderá regressar aos mercados e poderá nesse caso evitar um segundo resgate ou a reestruturação da sua dívida. A má notícia é que a austeridade e os sacrifícios duram mais um ano, até ao verão de 2015. Quando acabar o actual resgate, em Junho próximo, os três anos de programa de ajustamento terão implicado 25 mil milhões de euros em medidas de novos impostos e de cortes na despesa, austeridade com efeitos recessivos. Na Irlanda foram 14 mil milhões de euros.
Em resumo, há quatro possibilidades. A primeira é um caos social de estilo argentino e recuperação rápida após a guerra civil. Existe também a possibilidade do segundo resgate, como na Grécia, mas funcionou para a Grécia? A hipótese irlandesa existe, mas é pouco provável. Assim, resta a opção do programa cautelar que ninguém sabe bem o que é.

 

Fandango nacional
Todos os políticos nacionais conhecem estas limitações da equação, mas o que dizem é diferente. É como a dança do fandango, movem os pés depressa, parecem muito zangados, mas não saem do mesmo sítio.
Um país que tenha uma única opção não pode ser feliz. Na realidade, os portugueses andam pessimistas. Não pode haver violência ou será a Grécia ou, pior. Nós fomos os bons alunos da Europa, mas por enquanto só tivemos as dores e não tivemos os ganhos. Os mercados desconfiam e não olham para Portugal com a melhor dos olhares. O mesmo se pode dizer dos europeus. Mas pedir mais dor em cima da que já sofremos será arriscar uma crise social por exaustão da vítima. O fandango, então, pode acelerar a sério e tornar-se demasiado rápido para os dançarinos.

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publicado às 11:10



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