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Lisboa em 2100: Uma Reportagem (4)

por Luís Naves, em 20.11.13


Carrego a vergonha da minha juventude *
Na larga extensão de terreno vejo apenas as cores fortes e as formas estranhas dos edifícios. Todos têm largas superfícies envidraçadas e parecem bonecos de plástico que uma criança abandonou caoticamente no chão do quarto. Por vezes, torna-se quase enjoativo o efeito do contraste entre carmim, açafrão, ocre, azul-cobalto. Os prédios estendem-se ao longo de avenidas intermináveis, como se fossem sequências diferentes das mesmas proteínas. Nesta zona da cidade há centenas de empresas, na sua maioria estrangeiras, mas não vejo árvores ou qualquer sinal da natureza. O futuro que aqui se constrói será um mundo de vida artificial.
   A julgar pelo que vejo, Lisboa já entrou no século XXII. A empresa de onde saio, chamada Genoma Sintético, produz pessoas melhoradas, mas é quase inteiramente robotizada, tirando o departamento de engenharia, onde trabalham cientistas com ar de monges, numa atmosfera de reclusão e silêncio.
   Nas caves dos andares inferiores, os laboratórios são controlados por máquinas, algumas das quais lembram vagamente formas humanas e, segundo me disseram, algumas das quais escondem, atrás das placas de materiais rígidos, componentes orgânicos sofisticados que melhoram a sua inteligência artificial. Os olhos são metade biológicos, metade máquina; os cérebros têm tecidos com ADN desenvolvido por computador e adaptado às funções. Destes laboratórios, foi-me permitido vislumbrar uma parte minúscula e não tive qualquer acesso às áreas restritas. Perguntei o que se fabricava ali e disseram-me para não me inquietar, pois “fabrica-se mais do mesmo”.
   O ‘mais do mesmo’ está numa espécie de museu que ocupa o andar térreo da sede da empresa. A sala foi iluminada de forma a criar zonas de penumbra que dirigem o olhar do visitante para os tanques de líquido e para os triunfos científicos que se encontram no seu interior. A minha guia diz chamar-se Andreia. É uma mulher espantosamente bela, que usa um vestido antiquado e transparente, de extremo bom gosto, julgo que de meados do século.


 

   “Nestes expositores encontramos alguns dos produtos avançados da nossa investigação tecnológica”, explica a guia da Genoma Sintético. “Veja este exemplar. Ele pode mergulhar no oceano a profundidades de 300 metros. É um robô com 30% de matéria orgânica, capaz de realizar tarefas complexas. Tem um custo superior a cem milhões”.
   O preço impressiona. Penso que teria de trabalhar meio milénio para pagar um brinquedo como este. E, de súbito, a ideia de brinquedo provoca-me um calafrio. “Mas ele está vivo?” Andreia sorri com a minha pergunta, provavelmente a pensar que sou ingénuo. “Podemos ligar esta máquina biónica e desligá-la logo a seguir. Suponho que estará viva enquanto estiver ligada”. A rapariga ri-se: tem uma gargalhada fina, invulgarmente bela.
   Há um pouco de tudo neste pequeno museu de maravilhas (ou de horrores, como preferirem). Por exemplo, animais domésticos mais inteligentes do que os naturais. “Pode ensinar muitas habilidades a este gato”, explica Andreia. Robôs voadores, com asas iguais às dos pássaros. “As aplicações são inesgotáveis”.
   Sendo esta a parte visível das tecnologias, pergunto qual o sector mais lucrativo da empresa. “Sem dúvida, o departamento de envelhecimento”, responde-me Andreia. “Podemos travar o envelhecimento célula a célula, embora o custo seja elevado. Viver muito tempo é uma obsessão humana e nós sabemos como transformar isso em lucro. Noutra zona do País, num local discreto e paradisíaco, não posso dizer-lhe onde, temos um hotel destinado a uma clientela restrita. Os tratamentos duram duas semanas e fazemos pequenos milagres, tirando dez anos a cada paciente. Podemos fazer isso em intervalos de vinte anos. Trata-se de reverter o envelhecimento, não apenas de prolongar a vida. Usando as técnicas e a manipulação genética, também conseguimos produzir seres mais perfeitos, compostos químicos, medicamentos sofisticados”.
   Ao contrário do que se pensa, estas tecnologias já não são apenas experimentais. Algumas são acessíveis ao público, os tratamentos de cancro, por exemplo, mas outras são de tal forma dispendiosas que só um cidadão imensamente rico as pode usar. Andreia explica que para os milionários estão disponíveis técnicas de travagem do envelhecimento ou de melhoramento genético dos próprios filhos.
   Pergunto a Andreia o que geralmente pedem estes milionários, quando recorrem aos seus serviços. Ela sorri e responde que os pedidos são sempre iguais: querem bebés mais inteligentes e mais bonitos. “Sabemos perfeitamente quais os genes que vamos manipular. As pessoas ficam mais altas, elegantes, de pele branca, brutalmente inteligentes. No desporto ou no entretenimento isso também é normal. Trabalhamos com as melhores equipas. Estas tecnologias são usadas para desenvolver futebolistas fenomenais ou músicos perfeitos ou génios da ciência”.
   Não consegui apurar quantos clientes têm empresas como a Genoma Sintético. Sei apenas que, para recorrer a estas técnicas, é preciso pertencer à camada mais afluente da população, ao grupo de 1% no topo, talvez mesmo aos 0,1%. Eles não desejam que a tecnologia se democratize. Com essas vantagens, estarão indefinidamente no topo. Os ricos são cada vez mais belos, mais inteligentes e mais saudáveis, graças a anos e anos de investigação feita sobre cobaias humanas que pertencem às classes sociais inferiores e que podem beneficiar marginalmente.
   Terminada a visita, observo melhor a minha guia. Andreia é extremamente agradável. Tenho dificuldade em separar-me dela, uma sensação um pouco estranha, como se por uma razão a que sou alheio não quisesse acabar a entrevista. Ao despedir-me, para poder prolongar um pouco mais aquele momento, pergunto-lhe se gosta de trabalhar neste sector da economia. Ao ouvir a minha pergunta, ela fica com a expressão mais séria: “Nunca fiz outra coisa. Na realidade, tenho apenas dois anos. Sou um modelo experimental Andreia 5, cerca de 80% orgânico, programado para agradar extraordinariamente aos homens. A empresa pretende comercializar um produto de acompanhantes de luxo que possa ser vendido a milionários. E somos todas diferentes”.
   Perturbado com esta revelação inesperada, ainda lhe pergunto se lhe agrada a ideia de ser uma escrava. Infelizmente, ao abandonar o local não tenho certezas sobre a resposta que me foi dada. No bloco de notas escrevi "ainda não sei disso”, mas a minha memória insiste numa formulação distinta: “nunca pensei nisso”. 

 

*Jr 31:19 

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publicado às 17:18



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