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Lisboa em 2100: Uma Reportagem (2)

por Luís Naves, em 09.11.13


Eu tomar-vos-ei como um peso
As torres de cristal estendem-se na distância e aumentam o brilho da atmosfera cintilante, mas nesta parte da cidade podemos encontrar ainda os vestígios dos antigos jardins públicos e dos bairros com mais de um século, de prédios com três ou quatro pisos e grandes apartamentos de duas assoalhadas, amplos pátios de dez metros em frente à entrada. Para nós parece um desperdício de espaço, mas que diriam hoje os nossos avós, perante a urbanização total e as vastidões abandonadas que deixámos entre as cidades?


É ao fundo deste velho bairro (teve outrora o nome de Barreiro) que encontramos as novíssimas instalações do Instituto da Longa Vida, uma unidade governamental que promove o bem-estar dos cidadãos com mais de 120 anos. Não há janelas e o interior tem todos os modernos confortos permitidos pela tecnologia. “O custo não foi muito elevado”, afirma A. Santos, o director desta unidade, que serve uma população de cem mil habitantes. Estão aqui 2500 idosos, o que não chega para as necessidades. Dormem em cubículos espaçosos e têm locais de convívio e uma cantina com excelentes condições. Nas ilusões virtuais, este instituto ainda não dispõe de todas as novidades produzidas na América: “Foi impossível comprar o último grito”, explica o director Santos, “mas poderemos fazer um esforço, se o próximo orçamento autárquico o permitir”.
O autarca F. Manuel, que está ao seu lado, acena com a cabeça, num gesto de concordância: “Podia ser melhor, claro, mas esta é sobretudo uma questão política”. Os subsidiados pelo Estado perderam o direito de votar nos referendos que se realizam semanalmente e este tipo de construção pública tornou-se obrigatório desde que no ano passado os portugueses votaram a favor do internamento de todos os cidadãos com mais de 120 anos. Calcula-se que nos próximos anos serão construídas pelo menos mais cem unidades iguais a esta, para alojar os 250 mil cidadãos nascidos antes de 1980.


 

É impressionante que ainda haja aqui pessoas nascidas no século XX. Tento falar com um destes idosos. Está sentado ao lado de um grupo com óculos de realidade virtual. Ele não se entretém com a tecnologia, antes parece de olhar perdido nas paredes muito brancas, pintadas de novo. “O senhor lembra-se da passagem do milénio?”, pergunto. Ele olha para mim, primeiro absorto, depois num esgar vago, responde que não se lembra. Tento falar com uma mulher, dizem-me que é a mais idosa do centro, tem mais de 130 anos. “Lembra-se da Guerra Fria? Da Queda do Muro de Berlim?”, mas a senhora tem o olhar vazio, tenta balbuciar qualquer coisa, mas é tudo incoerente. “Nasceu em 1968, é incrível”, exclama o gestor A. Santos.
Percorro os espaços. O local é amplo. Tem cinema à maneira antiga, com salas de dez lugares, salas de óculos virtuais onde podem ser vistas ilusões de paisagens, de ficções, de jogos. Para os velhos com problemas de visão, existem ilusões de som: podem estar à beira-mar ou sentir a brisa no topo da montanha. Esta tecnologia custou um quinto do investimento. Também há modernas instalações de medicina e a alimentação foi calculada para o máximo efeito nutritivo. Há equipamento de neutralização de dores e instalações sanitárias de bom nível. Tudo inteiramente pago pelos contribuintes.
    
Foi sobretudo a partir dos anos 40 do século passado que as técnicas médicas permitiram prolongar a vida humana. Uma criança que nasça neste ano de 2100 poderá, com alta razoabilidade, atingir pelo menos o ano de 2250. Os nano-remédios atacam as doenças à nascença, ainda na fase celular; infelizmente, não tem sido possível resolver o problema da degenerescência de alguns tecidos, ou seja, a memória perde-se quase completamente a partir dos cem anos, embora o corpo humano se mantenha mais ou menos funcional. Se a actual geração conseguir resolver a limitação da memória, a idade máxima poderá ser estendida com qualidade acima dos dois séculos.


Pergunto a A. Santos qual a esperança de vida que têm os pacientes desta unidade e o gestor encolhe os ombros: “Ninguém sabe ao certo, mas calcula-se que alguns poderão chegar aos 150 anos”. Não é preciso fazer contas complicadas. Isso significa que muitas destas pessoas estarão ainda vivas em 2130. Coloco a questão de forma mais precisa: “Não haverá, portanto, espaço disponível para os novos cidadãos que entretanto fiquem sob a tutela do Estado”. O gestor e o autarca entreolham-se, hesitando.
É F. Manuel quem responde à minha pergunta: “O importante é podermos responder às exigências da lei. A escolha popular foi clara. Os idosos com mais de 120 anos ficarão sob a responsabilidade do Estado, internados em estabelecimentos próprios, perdendo a capacidade de votar, de exercer profissões ou fazer negócios. Por lei, nenhum jovem entra no mercado de trabalho antes dos 30 anos e a idade activa legal foi estabelecida entre os 30 e os 80. Entre os 80 e os 120, as pessoas gozam a sua reforma dourada. O que aqui vê é a solução para a quarta idade. Podemos dizer que ela implica a perda quase total de direitos, mas era isso ou a nossa sociedade ficaria completamente desequilibrada”.
F. Manuel deu-me a resposta oficial. A redução dos direitos cívicos em troca da protecção para o resto da vida. Assim foi decidido pelo número cada vez menor da população votante. Não podia haver velhos abandonados nas ruas e quem goza de subsídios, enfim, paga de alguma forma por eles. Não têm direitos, mas já não os exerciam.
Saio do Instituto da Longa vida já ao final da tarde. O crepúsculo está reflectido nas torres de cristal, agora pintadas de vermelho e laranja; acendem-se luzes em todo o horizonte; Lisboa resiste à escuridão.

 

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publicado às 19:26



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