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Contas externas favoráveis

por Luís Naves, em 25.09.13

Temos aqui uma boa notícia e outra má. A parte positiva pode ser encontrada neste post de Tavares Moreira, em Quarta República. Trata-se da análise informada do último boletim do Banco de Portugal, cujo link pode ser encontrado aqui. Onde está a má notícia? É que foi necessário ler isto num blogue.

Os números do Banco de Portugal sugerem que o programa de ajustamento está a atingir em pleno um dos seus objectivos: Portugal tem neste momento capacidade para pagar as dívidas. A balança corrente e de capital é francamente positiva e deverá atingir este ano 4,5% do PIB. O número foi revisto em alta e nas anteriores previsões era de apenas 3,6%. Este saldo já foi excedentário em 2012, mostrando que a tendência é sustentável. Em 2014, deveremos atingir um nível de 6,4%. Atenção: isto não tem precedentes na história económica do País.


Paulo Portas tem razão ao dizer que há sinais de viragem económica: as exportações continuam a crescer e a economia cairá no conjunto do ano menos do que se previa. O banco central também explica que o investimento vai piorar, o consumo interno será reduzido e o emprego sofrerá nova queda neste ano e no próximo. Os sinais de viragem são pois incompletos e débeis. Apesar de tudo, entre 2011 e 2012, Portugal tornou-se mais competitivo, com “ganhos de quota de mercado muito significativos nas exportações”, cerca de 7 pontos percentuais acumulados.

Infelizmente, o ruído mediático impede que estas notícias passem para a opinião pública. De tal forma se impuseram as narrativas da desgraça e do falhanço, que se torna tarefa inglória sublinhar os pontos favoráveis da realidade.

 

 

O ajustamento não tem apenas pobreza e sacrifício, mas inclui mudanças profundas, que se vão manter durante anos. No entanto, na comunicação social é difícil encontrarmos visões que não sejam pessimistas: não me refiro às notícias, mas às escolhas de notícias, o ângulo por vezes enviesado das leituras e, acima de tudo, os comentários. Não há comentador que prospere fugindo ao discurso neo-realista. Tudo é infelicidade e desolação, este governo falhou em toda a linha e o programa da troika é um completo insucesso. Aliás, as diatribes terminam sempre com a alusão aos avisos feitos pelo próprio sobre o desastre iminente.
Também é neste contexto de primeiros sinais favoráveis que surge a histeria em torno do segundo resgate. Para que este seja evitado, basta terminar o programa de ajustamento, que exige cortes expressivos na despesa pública e uma estabilidade política acima da média nos próximos seis meses. Os orçamentos portugueses jamais serão equilibrados se a despesa não descer pelo menos mais 5 mil milhões de euros, de forma sustentável. Não é o fim do mundo e certamente será muito mais fácil do que levar com um segundo programa de ajustamento que exigirá novas medidas de austeridade, ainda mais severas, com a soberania limitada durante mais tempo.
Todos os políticos sabem isto, sem excepções, mas nas últimas semanas temos assistido ao aumento da insensatez e da teimosia. A sociedade portuguesa está de facto a mudar os padrões de vida, a trabalhar para sair do buraco e a suportar todos os sacrifícios com coragem e bom senso. Falta o lado da política, falta o bom senso das supostas elites. Os políticos que ocultam as circunstâncias do resgate e impedem que a opinião pública compreenda a realidade estão a fazer um mau serviço ao País. A comunicação social, por seu lado, vive na ilusão de que as más notícias vendem mais do que as boas. Daí o exagero nas interpretações e a amplificação das dificuldades.

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publicado às 11:43



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