Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Uma boa notícia ignorada

por Luís Naves, em 17.07.13

Estamos todos um bocadinho cansados da política e desiludidos com as elites, por isso, talvez mais cínicos, incapazes de vislumbrar um passe de mágica que de repente possa consertar tudo à nossa volta.
Os comentadores mediáticos não ajudam a descodificar a realidade. Muitos nunca souberam (ou não quiseram) explicar à opinião pública a camisa de varas em que estamos presos. Daí que se mantenham tantas ilusões sobre a culpa dos credores ou a simplicidade das alternativas. Os portugueses continuam a acreditar que o Estado não está falido e que bastaria gastar umas verbas (inexistentes) para criar milhões de empregos.
O comentário tem sido dominado por políticos profissionais e nunca percebemos se estão a analisar a situação ou enviar recados. Os factos são escolhidos conforme dá jeito. Um exemplo: o boletim do Banco de Portugal divulgado ontem tinha várias notícias assim-assim, dissecadas ao pormenor pela legião de comentários, e incluía uma boa notícia, que foi quase ignorada.
Refiro-me às previsões para a balança corrente e de capital, que são de tal forma inéditas, que é preciso olhar duas vezes para elas, esfregar os olhos e pasmar. Pois esse indicador, em 2013, poderá atingir 4,5% do PIB, positivos, e 6,4% no próximo ano. Não há memória de algo assim.


Fala-se muito no défice orçamental, que inclui o pesado lastro da dívida, mas menos no desequilíbrio externo, cuja componente mais importante tem sido esta balança, agora excedentária. Em 2008, foi de 11,1% do PIB, negativos, e em 2010 de 9,4%, também negativos, o que atesta bem o descalabro do governo anterior. Foi preciso financiar estes défices gigantescos e o País endividou-se de forma rápida. Se a previsão se confirmar, isso quererá dizer que, durante o ajustamento, a balança corrente melhorou 14 pontos percentuais de PIB, o que significa que o programa está quase concluído. Deixámos de nos endividar e parece haver condições para pagarmos a dívida no futuro.
Os que detestam as boas notícias lembram que isto foi conseguido à custa da quebra de importações e do colapso do consumo. Certo, mas havia outra forma? As pessoas adaptaram os seus padrões de consumo e, mesmo que agora muitos portugueses comecem a abrir os cordões à bolsa, os valores parecem ser sustentáveis. Eles são até um bom argumento para diferir os efeitos da reforma do Estado, os famosos 4,7 mil milhões que estão na origem da crise política.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:47



Mais sobre mim



Links

Alguns blogues anteriores

Locais Familiares

Boas Leituras