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O que está a acontecer

por Luís Naves, em 17.04.17

Não há memória de uma ocasião em que, no espaço de apenas seis meses, tenham mudado radicalmente as lideranças de três potências do G-7, mas é o que está a acontecer. Depois da substituição do primeiro-ministro britânico, na sequência do referendo sobre Brexit, e da eleição de Donald Trump, as eleições francesas resultarão na terceira mudança consecutiva nas chefias das grandes potências ocidentais. Se passarem à segunda volta das presidenciais francesas, os candidatos François Fillon e Emmanuel Macron deverão ser eleitos (ou um deles, na hipótese mais improvável de ambos passarem à segunda volta) com a promessa de fazerem reformas, mas existe a possibilidade palpável de ocorrer uma viragem mais radical: a passagem à segunda volta de um de dois candidatos (Jean-Luc Mélenchon ou Marine Le Pen) é uma possibilidade evidente, sendo ainda possível um duelo entre ambos. Se um deles fosse eleito presidente, a União Europeia, tal como a conhecemos, seria posta em causa e acordaríamos, dia 8 de Maio, num mundo ainda mais diferente daquele em que já vivemos.

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publicado às 19:38

O poder da mudança

por Luís Naves, em 15.04.17

Uma pessoa da minha idade que em 1950 pensasse um pouco sobre os anos vividos saberia identificar os dez grandes acontecimentos que tinham mudado a civilização e o mundo. O início da guerra, em 1914, era um exemplo óbvio, mas havia outros: a revolução russa, o Tratado de Versalhes, o crash da bolsa em 29, a ascensão de Hitler em 33, o início da II Guerra Mundial na Europa (embora essa fatalidade já estivesse decidida um ano antes, com a ocupação da Áustria). Para completar uma lista justa era necessário incluir Pearl Harbour, a conferência de Ialta, a bomba atómica de Hiroxima e o Holocausto. Enfim, a lista de dez grandes acontecimentos podia ser um pouco alterada, para incluir a gripe espanhola, por exemplo, ou o terror estalinista, mas os acontecimentos citados eram mais ou menos evidentes. Ao analisar os anos vividos, elaborar a mesma pequena lista de dez mudanças parece ser um exercício mais difícil para uma pessoa da minha idade. Não posso incluir o triunfo comunista na China nem o primeiro voo orbital de Iuri Gagarine, mas já era vivo durante a crise dos mísseis de Cuba e no dia em que astronautas americanos chegaram à Lua. Maio de 68 é um mês importante, como é o primeiro choque petrolífero, que começou com o embargo do cartel de exportadores, em Outubro de 73. A revolução iraniana mudou muita coisa, sobretudo no mundo islâmico, que mergulhou numa cruel guerra civil entre xiitas e sunitas, radicalizando-se por sucessivas ondas de fanatismo; a sucessão de Mao Zedong, em 1975, não mudou apenas a China, o que já era imenso. Devemos talvez incluir a explosão de Chernobyl e, sem dúvida, a queda do Muro de Berlim. E não há grande controvérsia em colocar nesta lista os atentados de 11 de Setembro de 2001 e a longa crise financeira iniciada em 2008. Ficou imensa coisa de fora: a Guerra do Vietname, a cimeira entre Nixon e Mao, Watergate, Reagan, a perestroika, as guerras do Golfo, o euro, a crise migratória. Muitos dos meus contemporâneos fariam uma escolha diferente, mas o ponto é o seguinte: vivemos num tempo acelerado, em que é bastante fácil identificar, em cada cinco anos, um grande sismo político de dimensão mundial. A distância torna mais evidente cada escolha, ou seja, provavelmente já estamos a viver um evento de transformação global, mas cuja importância ainda não é clara. Ou não tardará um grande acontecimento, com efeitos imediatos de tal forma vastos, que não teremos qualquer dúvida: este tem de estar na lista.

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publicado às 19:41

E se acontecer o pior?

por Luís Naves, em 06.04.17

Faltam três semanas para a primeira volta das presidenciais francesas e, tendo em conta a elevada proporção de indecisos, as sondagens devem ser lidas com um grão de sal (no mínimo), mas o facto é que dizem todas mais ou menos o mesmo: o jogo não está decidido e há uma mudança na recta final. Os debates na televisão podem ter sido importantes, pelo menos no caso de Jean-Luc Mélenchon, candidato radical de esquerda, e de François Fillon, de centro-direita, que parecem ter beneficiado nos confrontos. Ambos estão a subir nas sondagens, embora ainda na zona de exclusão da segunda volta. Tudo indica que exista uma relação directa entre o voto em Mélenchon e o voto no candidato socialista, Benoit Hamon. Quando um sobe, o outro desce na proporção equivalente. Se olharmos para os inquéritos, verificamos facilmente que a soma dos dois é consistente, em torno dos 25 ou 26% das intenções de voto. Sendo assim, um socialista que considere o seu candidato derrotado, tenderá a votar útil, ou seja, no candidato mais semelhante ao seu. Mélenchon tem, assim, boas hipóteses de atingir 22-23%.

O mesmo raciocínio pode ser usado para François Fillon e Emmanuel Macron. O republicano e o centrista disputam a votação moderada, sobretudo na direita, já que Macron parece ter a preferência dos partidos centristas (que são pequenos) e dos socialistas moderados. Durante semanas, Macron atraiu o voto de republicanos desiludidos (por causa do escândalo dos empregos fictícios), mas o facto é que este eleitorado não ficou convencido e não haverá voto útil. A soma dos dois candidatos é consistente, em torno de 42-43%, sendo admissível que a coisa se divida irmãmente, o que daria a cada um algo como 21%, ou um pouco mais. O terceiro bloco de votos escolhe Marine Le Pen e desceu ligeiramente por causa dos debates, mas este eleitorado está mais do que convencido. A candidata terá, na pior das hipóteses, 22 ou 23%. Tendo em conta as margens de erro, a admitir a transferência de votos no eleitorado de esquerda e a recuperação por Fillon dos republicanos que Macron não convenceu, é fácil admitir que qualquer um destes quatro candidatos pode seguir para a segunda volta, incluindo-se aqui o cenário catástrofe de um eventual duelo entre Mélenchon e Le Pen, que daria à França a certeza absoluta de eleger um péssimo presidente.

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publicado às 16:17

Conflito

por Luís Naves, em 01.04.17

As mudanças eleitorais reflectem uma transformação social que os intelectuais tardam em compreender: há uma camada de vencedores e outra de derrotados. Os vencedores da nova economia são globais, mas habitam numa bolha de alheamento; os perdedores não têm perspectivas de futuro, esmagados pela desindustrialização e pela automatização dos seus empregos. Os que se encontram em condições de beneficiar das vantagens da economia global recusam-se a aceitar os problemas de identidade que atingem aqueles que se sentem prejudicados pelo mesmo globalismo. Este é o conflito crucial do nosso tempo e está presente nas pequenas violências aparentemente incompreensíveis (as claques fanatizadas, as diversões jovens sem responsabilidade), mas também na interpretação dominante da realidade, que descreve um mundo em extinção e em que as pessoas já não se revêem.

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publicado às 19:43

Incógnitas francesas

por Luís Naves, em 06.03.17

A situação complica-se em França. O candidato republicano François Fillon continua em queda nas sondagens e parece mais longe de passar à segunda volta, quase garantindo que na corrida final estarão Marine Le Pen e Emmanuel Macron: a primeira é uma populista de extrema-direita, o segundo um político jovem e nunca antes testado, cuja maior glória é uma lei laboral que grande parte da esquerda contestou. A eventual vitória de Le Pen será o fim da União Europeia tal como a conhecemos; se Macron vencer, será preciso que ganhe também as legislativas de Junho, algo difícil para quem não dispõe de máquina partidária. Não estou a ver os eleitores comunistas ou da esquerda radical a votarem facilmente num candidato com discurso neoliberal puro e muita retórica à maneira de Obama, apoiado pelas elites financeiras do país e pelos meios de comunicação tradicionais. Le Pen não precisa de ser eleita para o Eliseu, basta-lhe ter mais de 40% na segunda volta para fazer tremer todo o sistema: depois, a líder da Frente Nacional tentará segurar esta votação para as legislativas, sabendo que dificilmente Macron terá o mesmo êxito, pois muitos dos seus eleitores votarão em candidatos republicanos ou socialistas, em muitos dos combates a três nos círculos uninominais. A partir de certo patamar, os cordões sanitários já não funcionam.

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publicado às 15:40

Europa, Europa

por Luís Naves, em 04.03.17

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, publicou esta semana um documento de reflexão sobre o futuro da Europa a 27, o chamado Livro Branco, que pretende balizar a discussão sobre o formato da UE em 2025. Tem cinco cenários de futuro: continuidade; recuo para o mercado único; Europa a várias velocidades; reforço da integração num núcleo central de problemas; e fuga para uma organização federal, prevendo, entre outras inovações, a união europeia de defesa, expansão significativa do orçamento comunitário e coordenação em questões sociais.

O que se pode criticar no documento não é a definição de cinco cenários, mas o que a Comissão decidiu escrever sobre cada um deles. Leia-se com atenção o texto, sobretudo a tabela da página 29, e percebemos com clareza o que Bruxelas pretende defender, ou seja, o cenário cinco, o que lhe dá mais poder, de onde se recuará para o quatro, e deste para o três, se for impossível convencer a opinião pública.

Na hipótese federal, com título inócuo de ‘fazer muito mais todos juntos’, é tudo fantástico ou, na pior das hipóteses, idêntico ao cenário 4, à excepção da capacidade de realização, que é afinal uma função da vontade política. Se caminhar para o cenário 5 ou 4, a UE fará acordos comerciais em nome dos 27 e normas europeias para políticas onde estas ainda não existem (energia, trabalho, serviços); haverá uma agência para gerir os pedidos de asilo e um fundo monetário europeu controlado pelo parlamento europeu; a união económica e monetária será concluída (acabando de vez com a autonomia orçamental dos países), o orçamento será reforçado; enfim, teremos uma só voz na política externa, guardas de fronteira europeus, até talvez defesa comum.

Não sei em que bolha habitam estes políticos, mas não devem estar atentos às eleições francesas. Considerando as sondagens sobre a primeira volta, 40% do eleitorado prepara-se para votar em candidatos (Le Pen e Mélenchon) que defendem a saída do euro; na Holanda, a proporção não é muito inferior.

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publicado às 18:54

Excerto de um texto

por Luís Naves, em 02.03.17

(...)


Vivemos numa época em que é cada vez mais difícil interpretar a realidade. O poder está fragmentado, as sociedades perderam coesão cultural; já não aceitamos de forma complacente todos os pontos de vista dos nossos intelectuais, das elites e dos meios de comunicação. Hoje fala-se em fake news, notícias falsas, mas a questão não é nova. A manipulação da verdade é uma circunstância do mundo contemporâneo que existiu em outras épocas. Podemos distorcer o que contamos, exagerar, omitir. É possível alterar a percepção que as pessoas têm dos conflitos, manipulando as emoções. O ponto de vista nunca foi inocente. Mas os leitores de hoje, ao contrário do que acontecia no passado, desconfiam das notícias que lhes chegam pelos canais tradicionais. Os meios de comunicação atravessam uma crise de credibilidade; está a ser contestado o cartel dos mediadores que interpretam a realidade: as fontes de informação são múltiplas e produz-se uma quantidade imensa de notícias e de opiniões. Os leitores contemporâneos tendem a rejeitar todos os meios de comunicação que não alinhem na sua definição de verdade. É como se vivêssemos nas bolhas de uma garrafa de champanhe, que coexistem separadas. Só aceitamos discussões onde se diz aquilo que queremos ouvir. As próprias palavras já não significam o mesmo em cada um dos lados da barricada. Este debate é paradoxal: não conheço ninguém que não procure informar-se melhor. No mundo em que habitamos, nunca houve tal proporção de indivíduos cultos; pode parecer contraditório com o que disse antes, mas hoje é impossível esconder uma informação essencial; sabe-se tudo; a opinião pública reage de imediato a qualquer abuso de poder e o eleitorado penaliza qualquer governante que cometa erros demasiado grosseiros. Como é que se manipula neste contexto? Escondendo a informação sensível numa montanha de abundância. Não é preciso censura, existe apenas uma autêntica enxurrada de factos, o que torna difícil a selecção daquilo que possa ser relevante. Este contexto parece ser ideal para operações de manipulação. Estamos porventura a assistir a esse fenómeno em várias notícias da actualidade. Em França, por exemplo, o candidato François Fillon estaria em excelentes condições para vencer as presidenciais se não tivesse aparecido uma notícia num momento cirúrgico. Ela é verdadeira, muito embaraçosa, mas por que razão surgiu exactamente agora, em vez de aparecer quando ele era primeiro-ministro ou nas primárias dos republicanos? Escândalos em vésperas de eleições? Temos de desconfiar, naturalmente.

(...)

Excerto de um texto lido na apresentação do livro Manipulação da Verdade, de Eric Frattini, editado pela Bertrand.

Fiquei também a conhecer o autor, uma pessoa fascinante. 

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publicado às 18:48

Enfrentar os índios

por Luís Naves, em 22.02.17

Não é fácil entender o mundo contemporâneo e a vaga de mudança política nos países mais ricos do mundo sem considerar que há duas ideias incompatíveis em confronto. Um dos lados da barricada pensa que a civilização ocidental é um fracasso e deve reconhecer os seus erros históricos e mudar de práticas; a outra olha para os conflitos mundiais como parte de um choque de civilizações, onde culturas bárbaras ameaçam suplantar as avançadas. No fundo, ambos pensam que não existe lei do progresso e ambos consideram que somos testemunhas de um declínio da modernidade. A esquerda acredita que o cristianismo é totalitário e que o capitalismo leva os países para a escravatura e o império. A direita acredita que o Ocidente se encontra em perigo iminente e defende o reforço da identidade como única saída para travar os processos de decadência. A fronteira é o primeiro campo de batalha desta guerra de culturas, pois define o espaço em que as pessoas se incluem. É por isso que as migrações são o grande tema das campanhas políticas, pois tocam no nervo das opções da sociedade. Os argumentos mais acesos, por exemplo, sobre as decisões da nova administração americana ou nas campanhas eleitorais europeias em 2017 e 2018, giram em torno do choque de civilizações ou da culpa do Ocidente e têm geralmente relação directa com a questão da identidade. As elites discordam dos seus compatriotas descontentes, os meios de comunicação recusam-se discutir o tema, as nações resistem, a globalização está a mudar de forma, reduzindo-se entre espaços que se consideram distintos, acelerando nos territórios que se reconhecem da mesma ordem. A parte mais irónica é que a ideia da dissolução do Ocidente criou uma resposta que nos conduz a futuros mecanismos de alianças de civilizações. Lembram-se do livro de Samuel Huntington que popularizou a noção de ‘choque de civilizações‘? É curioso, mas está lá tudo, os problemas de identidade, as migrações, as prováveis alianças, a ameaça do extremismo islâmico, o Ocidente no auge do seu poder e a enfrentar os índios.

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publicado às 19:17

Guerra de culturas

por Luís Naves, em 08.02.17

Desapareceu o confronto tradicional da política. Aquilo a que assistimos é um sismo na ordem global, sob a forma de guerra de culturas. A luta tem crescente violência a alastra a novos domínios da vida quotidiana. Os dois exércitos falam uma língua diferente e são irreconciliáveis. estão a conquistar todo o debate. Um dos lados diz que foi atraiçoado pelas elites, pelos dirigentes que não disseram a verdade, pelos banqueiros cínicos e pelos intelectuais acomodados. Estas pessoas não estão apenas desiludidas, mas enraivecidas: querem as suas vidas de volta, a segurança que tinham, as fábricas onde trabalhavam (agora, na melhor das hipóteses, andam a virar rodelas de carne moída); querem sair do empobrecimento e da precariedade em que caíram, querem que não vençam sempre os mesmos. Este grupo está convergir em protestos que mais parecem rupturas, contestando as migrações em massa, a insegurança crónica. Julgam estar a viver no declínio, numa sociedade em perda de memória, com sinais de senilidade. Por isso, procuram a mudança; para eles, está em perigo a preservação da identidade e ficam estupefactos quando o outro lado não consegue ver isso. Querem a pátria de volta e respeito pelas tradições; recusam os políticos do diálogo e do consenso; desprezam burocratas não eleitos e desconfiam das organizações não eleitas. Este exército de protesto enfrenta um grupo heterogéneo, dominante nas classes triunfantes da nova economia, nos debates televisivos, nas discussões académicas e até na arte contemporânea. Este segundo grupo, o que está instalado no poder, tem muitas opiniões, mas defende genericamente que a sociedade se caracteriza pela mestiçagem de ideias e que a diferença que vem de fora deve ser integrada com extrema tolerância, o que não se pode dizer sobre o pensamento antigo; esse, sendo fonte do mal, deve ser rejeitado.

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publicado às 19:19

Interpretação cansativa

por Luís Naves, em 25.01.17

Está a tornar-se cansativa a interpretação que olha para as democracias contemporâneas como tendo dois tipos de eleitores: os que sabem pensar e votam bem; e os misóginos, reaccionários, estúpidos, racistas, xenófobos e genericamente brancos pouco qualificados cujo voto não devia contar. Nunca vi tantas pessoas de esquerda escandalizadas com os ataques ao livre comércio e à globalização. O novo presidente americano, condenado por cumprir o que prometeu, é geralmente descrito como não tendo credibilidade, legitimidade, popularidade ou sequer qualquer género de humanidade. Vladimir Putin, o czar da Rússia, parece que venceu as eleições na América, depois de ter vencido o Brexit, mas também se prepara para ganhar as eleições na Holanda, em França e talvez na Itália, usando fantoches e a desinformação da poderosa estação de televisão RT, capaz de enganar eleitores notoriamente estúpidos. Esta história da carochinha é defendida pelos mesmos que se indignam com os ataques de Trump aos espiões da CIA, agora denominados ‘comunidade de inteligência’.

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publicado às 19:26


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