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Uns com bilhete e os outros...

por Luís Naves, em 11.07.17

Foi na grande crise que começou a queda lenta em que vivemos. Chamem-lhe essa espécie de fim do mundo, quando começámos a perceber que estávamos sufocados e presos à servidão, enquanto crescia o fosso entre os que tinham direito a bilhete e aqueles que não tinham esse direito, como observou o intelectual húngaro Támas Gaspár Miklós, num texto que escreveu sobre a crise migratória, inspirado naquilo que vira numa gare de comboios paralisada, apinhada de refugiados e de passageiros sem transporte, uns mostrando o bilhete, os outros de mão vazia, mas todos a meio da viagem e aparentemente sem destino. O nosso tempo estabeleceu uma divisão entre os que beneficiam das liberdades e os que não lhes têm acesso; entre os que vivem na abundância crescente e aqueles que se afundam na estagnação; entre os que passam fronteiras e os que ficam à porta; entre os que são escutados e os outros, cuja voz é ignorada, com desprezo ou indiferença. A liberdade, a saúde, a justiça e o conhecimento são mais desiguais do que eram. O mundo radicaliza-se. Os mais fortes triunfaram sobre os fracos e as palavras passaram a ter significados restritos, que impedem as discussões. Cresce a intolerância e as discussões são submetidas a um duplo critério que não permite compromissos.

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publicado às 19:01

Memórias, de Brandão

por Luís Naves, em 05.07.17

Entre leituras caóticas de Rodrigues Miguéis, Aquilino Ribeiro e Mário Vargas Llosa, alguns excertos das Memórias, de Raul Brandão, livro espantoso que a Quetzal se atreveu a publicar num único volume. Conhecia a primeira parte, mas não os dois segmentos seguintes. Há por ali reminiscências pessoais, sem autobiografia, pequenas histórias retiradas de conversas, um bocadinho de má-língua, recortes da imprensa, textos de poesia pura, crónica, observações políticas, comentário, um pouco de tudo, enfim, e a leitura é uma delícia contínua. Não sei se já li o suficiente para compreender o livro, mas ocorreu-me que, se na época de Raul Brandão houvesse blogues, o escritor teria utilizado o meio. Outra ideia ainda não está sedimentada, mas muitos textos revelam excertos de conversas e, em muitos casos, revela-se ali a escassa lucidez das elites portuguesas (os rumores que os cavalheiros iam transmitindo fazem lembrar as conversas do moderno facebook). Não sei se não estaremos a viver um período parecido com alguns dos piores momentos da Primeira República, pois também agora são os exaltados que se fazem ouvir. É também claro que não se encontram reflexões sobre grandes acontecimentos externos; isso, não sei explicar, mas o conhecimento do mundo talvez seja uma mania contemporânea; damos grande atenção à espuma dos eventos estrangeiros, isso vê-se, por exemplo, na obsessão com os fait divers de Trump, geralmente truncados e balofos. No fundo, continuamos provincianos, como no primeiro terço do século passado. Mas isto já foi uma digressão a mais: leiam as Memórias de Raul Brandão, um diário onde se mistura a crónica; na literatura portuguesa não há muitos exemplos do género, pelo menos com esta qualidade.

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publicado às 19:06

Dias de luto

por Luís Naves, em 02.07.17

A extraordinária hipocrisia da classe política portuguesa a que assistimos por este dias de luto não é muito diferente da profunda estupidez de uma elite mediática instalada no nevoeiro da sua ilusão de poder. Vivem ambos na mesma bolha que se afasta irremediavelmente do país, como se flutuasse numa jangada.

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publicado às 18:55

Sempre o mesmo

por Luís Naves, em 01.07.17

Há uma irrealidade em tudo isto: a negação das alterações climáticas e de uma floresta que está errada há 50 anos, desadaptada ao clima em mudança e à desertificação humana dos territórios. E em cada ano, o poder político comete os mesmos erros, refém de interesses obscuros ou na simples armadilha da estupidez humana, não sei ao certo, mas batemos com a cabeça na parede sempre da mesma forma, ignorando os conhecimentos da ciência, recusando as verdadeiras reformas da floresta, esquecendo o colapso evidente de um mundo rural que simplesmente já não existe. Desta vez, os erros foram acentuados por leis inúteis, pelos governantes mais preocupados com a imagem e ainda pela necessidade de praticar em larga escala as chamadas cativações orçamentais, única forma de emendar as ilusões que nos venderam de que a austeridade acabara. É assim em Portugal: estamos sempre a marrar com a cabeça nos mesmos problemas e as pessoas lúcidas são postas de lado pelos grandes medíocres.

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publicado às 18:44

Fomos compreendendo a pouco e pouco

por Luís Naves, em 27.06.17

Na grande crise houve vencedores e vencidos, como acontece em todos os grandes acontecimentos. Nos últimos cem anos deram-se quatro grandes transformações e, em três delas, toda a gente percebeu que o mundo tinha mudado de um dia para o outro. Foi assim no final da Primeira Guerra Mundial, depois de novo no final da Segunda Guerra Mundial, ao explodir a primeira bomba atómica, depois quando caiu o Muro de Berlim. Na crise financeira de 2008, a quarta grande transformação consecutiva, ninguém percebeu que o mundo tinha mudado de forma radical; fomos compreendendo isso apenas a pouco e pouco.

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publicado às 18:58

Ambição

por Luís Naves, em 25.06.17

Os nossos avós viviam pouco tempo e sonhavam com a sobrevivência da colheita de cada ano, sem pensarem muito no ano seguinte, que pertencia ao longo prazo, e a sua existência era tão precária, que pouca gente se podia dar ao luxo de planear à distância ou de construir algo para as gerações seguintes. E, no entanto, a resignação à realidade era bem mais fácil do que nesta nossa época de ardor e cólera, onde nenhuma ambição é verdadeiramente satisfeita. A cada um de nós foi prometido meio mundo e consentida uma mera fracção. Podemos ver o grande bolo atrás da vitrina, na aparência bastará esticar a mão e será nosso, convenceram-nos de que estará disponível, mas é tudo uma construção ilusória, excepto para uns poucos que nem sequer andam saciados.

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publicado às 18:39

Fúria

por Luís Naves, em 22.06.17

A trivialidade de uma vida pode conter em si pequenos ensinamentos, indícios de coisas mais largas e vastas que se encontram ocultas, os padrões escondidos da grande máquina social. A História é um oceano do qual só vemos uma camada superficial que nos parece gigantesca; e os esforços de um simples homem sobre a água nada nos explicam, até compreendermos que ele seja também arrastado pelas forças poderosas das correntes mais fundas e da água mais fria. Enfim, não consigo compreender a fúria desta época nem o rumor e a devastação incessante da mudança.

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publicado às 18:35

Memória da Graça

por Luís Naves, em 19.06.17

Estão a arder alguns lugares onde passei parte da minha infância: ocorrem-me as primeiras memórias, a minha avó, a minha mãe. A primeira vez em que percebi o tamanho do mundo estava na orla de um imenso pinhal (era imenso porque eu devia ter uns três ou quatro anos), e os troncos erguiam-se como se fossem pilares de uma catedral cujo tecto filtrava a luz em pequenos fios oblíquos; e o solo, repleto de fetos, tinha um ligeiro declive que me fascinou intensamente. Lembro-me do cheiro da terra e do perfume único dos pinheiros e de uma voz ao fundo, muito ao fundo, para lá de uma barreira em que terminava a floresta e se alongava uma vastidão ignorada, onde se propagavam as vozes estranhas e fantasmagóricas de não sei quem, numa língua desconhecida e com os seus dramas próprios. O pinhal ficava ao lado da casa da minha avó, nos confins da aldeia onde ela era professora primária e, um pouco afastada, talvez a dois ou três quilómetros, ficava a aldeia da Graça, que por estes dias esteve na rota do fogo e onde anos depois estudei, com pouco êxito, a catequese. Ainda hoje confundo algumas das rezas fundamentais, que nunca penetraram completamente neste meu crânio duro e mau, talvez por culpa do padre Aníbal, a quem a minha avó chamava sarcasticamente o padre animal. Lembro-me da luz pura e dos campos fragmentados, lembro-me da estrada em macadame e da pobreza, lembro-me das casas em pedra, dos currais, do porco Príncipe Perfeito que nós, as crianças, torturávamos com alegria, e todos chorámos quando ele foi vendido, gordo como um porco; lembro-me dos campos lavrados, do milho alto, mas não tenho memória do calor extremo. Eram tempos mais amenos, parece-me, a minha avó tinha um telefone em que se dava a uma manivela e se pedia linha à telefonista; lembro-me de tudo isso e muito mais, da sujidade e da água, das estrelas no céu e da lua cheia em que passeavam astronautas, lembro-me do foguetão que fizemos com pólvora e em cuja explosão pereceram duas baratas; lembro-me do peru voador e dos miúdos camponeses, da escola e do meu fascínio pelas letras escritas a giz no quadro negro; estas aldeias tinham muitas histórias, da velha que matava galinhas com o olhar, do regresso dos franceses, do escândalo que foi a minha tia a bronzear-se ao sol em biquíni, as invejas e as guerras por terra e água, o bailarico e o vinho, as velhas de negro, as vidas duras e secas, o ocasional fogo ao longe, mas isso já era mais raro que o resto, que era a vida de então, existência entretanto extinta e lembrada apenas em imagens fugitivas que se vão perdendo. Sim, não havia as temperaturas de hoje, não havia as calamidades florestais de hoje, aquele mundo desapareceu mesmo, como certamente há muito tempo se terá esfumado mais aquele chão de floresta à beira da estrada e ao lado da casa agora em ruínas, o gigantesco pinhal em que pela primeira vez pressenti a dimensão do mundo.

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publicado às 13:19

Pureza e razão

por Luís Naves, em 13.06.17

De um lado, estão os que têm sempre razão; do outro, os que não têm razão em coisa alguma. A análise dos conflitos humanos é cada vez mais uma interpretação que divide o mundo entre bons e maus, entre puros e impuros, entre aqueles que estão a favor do desenvolvimento da humanidade e aqueles que defendem apenas o retrocesso. Os meios de comunicação aderiram com entusiasmo a esta visão simplista, talvez por imposição das redes sociais, e vemos estender-se a qualquer assunto, por banal que seja, a tese redutora que avalia toda a política a preto e branco, sem visualizar sombras ou subtilezas. Esta equação de soma zero esquece um facto evidente: se todas as coisas humanas fossem um simples combate entre luz e escuridão, teríamos apenas clarão e trevas, ou seja, duas situações sem forma. Em Portugal, as coisas complicam-se, pois nunca há polémicas, apenas gritaria. Se alguém argumenta com dureza, logo isso é interpretado como agressividade e ataque pessoal. Quando lemos as polémicas antigas, encontramos reacções indignadas a argumentos civilizados, a que se seguem berrarias indescritíveis sobre as qualidades físicas do oponente ou, em desespero, a má leitura de alguma coisa que ele escreveu em 1830, com as devidas alterações, para que pareça pertencer exclusivamente ao campo dos maus, dos impuros e dos reaccionários.

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publicado às 15:25

Como cantaria ela os parabéns-a-você?

por Luís Naves, em 12.06.17

Num restaurante para jovens, daqueles de fast food americana, um grupo de adolescentes desatou de repente a cantar os parabéns-a-você, e foi um momento de pureza, ingénuo e simples. Em volta, havia apenas sorrisos e, no meu canto da sala, a pensar como a vida passa, senti primeiro a onda feliz, mas logo a seguir um arrepio, com a ideia repentina de que tudo será um dia esquecido; decorrida uma eternidade suficiente, digamos de quinhentos anos, nem sequer haverá a mesma língua, nem sequer porventura a mesma canção de parabéns, talvez não existam os países e as cidades, nem nada de parecido, apenas os rostos semelhantes de pessoas em tudo o resto diferentes. Terá decorrido um minúsculo nada na linha do tempo e uma imensidade e meia nas vidas humanas, pelo menos de quinze gerações. Ninguém se lembrará de quem fomos ou que significado tivemos, tudo o que deixarmos será interpretado, até se tornar incompreensível. Tenho à minha frente uma reprodução de Uma Jovem de Florença, como é conhecida a pintura de Domenico Ghirlandaio, de 1495, cujo original está no Museu Gulbenkian (existe uma grande reprodução numa estação de metropolitano); a minha imagem é um pequeno rectângulo chamado pano em microfibra, o que teria deixado o pintor italiano numa perfeita estupefacção; como está no meu ângulo de visão, em frente ao computador, penso muitas vezes nesta rapariga (quem seria, o que fez, como viveu?) muito criança ainda, olhos cinzentos e cabelo ruivo, rosto que podia ter encontrado naquele restaurante para jovens onde se cantavam os parabéns-a-você, nesse quase-nada congelado na linha do tempo e que em breve, digamos quinze gerações, nem sequer fará sentido para alguém que esteja vivo, pois tudo é passagem e esquecimento.

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publicado às 16:55


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