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Mudança de modelo

por Luís Naves, em 16.09.17

A maior consequência da saída do Reino Unido da União Europeia não será um colapso do comércio ou uma recessão. Londres estava fora da moeda única e, por isso, já estava fora da união, pois a única maneira de manter a prazo a estabilidade da moeda comum europeia será aprofundar as instituições políticas que a regulam (quem paga as contas tem de ter uma maneira de controlar as decisões). O orçamento comunitário vai crescer a prazo, pelo que haverá impostos europeus; existirá um poder transnacional com capacidade para forçar um país a fazer reformas estruturais impopulares; um acordo entre franceses e alemães será imparável; um país que não cumpra as regras terá de ser afastado do euro e lançado para o patamar de comércio livre dominado por Londres (a EFTA reanimada), embora neste ponto exista um problema, pois se a saída for demasiado fácil não fica ninguém na moeda comum. Enfim, acabou a fase de bom senso, que visava criar uma aliança de nações e um mercado único, e começa a erguer-se uma federação burocrática, que pela sua natureza terá de reprimir todos os nacionalismos, menos o francês e o alemão.

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publicado às 20:18

Portugal visto pela CIA

por Luís Naves, em 13.09.17

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Amanhã, quinta-feira, 14, é lançado em Lisboa, na FNAC do Chiado, a partir das 18 e 30, o meu livro Portugal Visto pela CIA, uma edição da Bertrand que terá apresentação da historiadora Irene Pimentel. Com base em relatórios secretos, até hoje inéditos, tento analisar a forma como os espiões americanos olharam para o nosso país durante um período longo, entre os anos 40 e o final dos anos 80. No fundo, trata-se de uma radiografia da sociedade portuguesa e das diferentes situações políticas, mas também da mentalidade do povo e das elites. A CIA acompanhou de perto as perturbações do Estado Novo, a ditadura salazarista, a guerra colonial, a primavera marcelista, a revolução e o fim do império. Houve vários exemplos de má avaliação, mas também observações certeiras sobre as ilusões nacionais e a nossa tendência para delírios poéticos. Assim, gostaria de convidar para a sessão de lançamento todos os leitores interessados neste tema.

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publicado às 12:09

O independentismo folclórico

por Luís Naves, em 12.09.17

O processo de independência da Catalunha está a ser tratado com pinças pelos meios de comunicação nacionais, talvez pela circunstância do tema ser fracturante dentro da chamada geringonça, a aliança de poder entre esquerda radical e centro-esquerda. Muitos dos nossos comentadores olham com indisfarçada simpatia para o separatismo catalão, que é sobretudo folclórico e sentimental. E, no entanto, se a Catalunha se separasse da Espanha, isso era objectivamente péssimo para os interesses portugueses.
Para os catalães, a independência era uma calamidade: ficavam mais pobres, mais inseguros e provavelmente menos livres, pois muitos cidadãos têm raízes na Andaluzia ou na Galiza, de onde os seus pais emigraram há 40 ou 50 anos, atraídos pelo emprego industrial desta próspera região.
A independência da Catalunha, sobretudo num processo ilegal como aquele a que assistimos, implicava a imediata saída da União Europeia e da zona euro. E podia ser uma saída sem regresso. Os catalães negociariam um período de transição, mas fora do BCE e do mercado único. Passados alguns anos, a Catalunha teria imensas dificuldades em regressar à UE, pois a Espanha e todos os países com minorias separatistas tenderiam a votar contra.
Entre os nossos comentadores da esquerda avoluma-se uma tese extraordinária, de que há nacionalismos bons e nacionalismos maus; há aspirações nacionais que temos de combater e outras que podemos defender com simpatia. Há constituições que devem ser preservadas e outras que podemos rasgar. Há Estados onde os tribunais pesam e as leis se aplicam e outros onde isso não é bem assim.
O mais espantoso, nos nossos dias, não é este desejo popular de reforçar a identidade das nações, mas a tendência suicidária que se manifesta em sectores substanciais das sociedades mais ricas, neste caso entre a burguesia catalã, mas podia citar o exemplo do Brexit. É este o maior enigma: o que leva países prósperos a namorar os abismos?

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publicado às 15:40

A frivolidade

por Luís Naves, em 08.09.17

A frivolidade está a matar o jornalismo e as artes. Quando um tema é demasiado complexo, os animadores sentem-se na obrigação de o desmontar, apresentando somente os seus aspectos comezinhos e giros, que não fazem pensar nem incomodam. As notícias, essas, são reduzidas às vacuidades, ordinarices, exibições de mau gosto ou ainda ao espectáculo da demagogia e das ideias truncadas. As pessoas adoram frases vazias que pareçam grandiosas, querem líderes que lhes contem histórias da carochinha, o que reduz a política a um enredo em papel couché com imagens glamorosas. A frivolidade mata a arte porque ninguém quer o pensamento simples sobre o real; as massas preferem claramente tudo aquilo que, prescindindo de um olhar sobre a alma dos seres humanos, não vá além da flor da pele e da aparência de inovação estética; quanto mais rebuscada, melhor.

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publicado às 11:21

Camponês

por Luís Naves, em 31.08.17

Enfim, isto não tem saída, só me resta continuar, fazer das tripas-coração e escrever, sem olhar para trás. Escrever como trabalhador rural, não como um burguês. Sou da picareta, abro valas junto à estrada, trabalho à sachola, sem tempo para olhar a paisagem, sem enfeites nem ornamentação; não me sinto mais jardineiro, sou camponês sem terra e, para extrair o pão, tem de ser à força, com suor e o mínimo de ilusões. A partir pedra.

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publicado às 11:15

Escrever para os amigos

por Luís Naves, em 30.08.17

Uma parte substancial da literatura será porventura resultado das cautelas, pois os autores preocupam-se, e muito, com o que dizem deles; por isso escrevem para os membros das tertúlias, para os amigos, para o seu círculo de críticos particulares, não faças isto, não faças aquilo, faz antes isto e devias era tentar aquilo, o que se calhar explica a longevidade daqueles raros escritores que não tinham círculo a quem prestar contas, os que tinham poucos amigos, sobretudo daquele género cuja amizade tem este preço elevado de um certo conformismo.

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publicado às 11:12

Navegações

por Luís Naves, em 28.08.17

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As discussões em Portugal estão a atingir um tom histérico que talvez seja revelador de problemas mais fundos. Felizmente, ainda resistem algumas vozes lúcidas. Dou aqui três exemplos de autores que, num país civilizado, seriam escutados com mais atenção.


Francisco José Viegas alia a sua cultura vastíssima a uma interpretação inteligente do mundo. Todos os seus textos são uma delícia de estilo, pois é um mestre da crónica e romancista premiado, que ainda por cima consegue escrever com humor irónico, o mais difícil.
Filipe Nunes Vicente, um dos nomes da blogosfera portuguesa, tem um novo blogue. O autor habituou-nos a um pensamento livre, que se está nas tintas para o arrastão das banalidades. Garante aos seus leitores acutilância.
O terceiro exemplo que vos deixo brilha sempre pela clareza das ideias. Pedro Correia tem toda a razão neste texto e os delírios politicamente correctos que refere mais parecem um ensaio de Verão Quente. Esta nova protecção civil do pensamento vai começar a cortar a eito no eucaliptal da tradição literária: em particular, parece-me, o Camilo está tramado.

Veja-se esta frase politicamente incorrecta de Camilo Castelo Branco, quando o narrador discute o mérito relativo de famílias provincianas, a do neto do almocreve com pergaminhos (apesar de tudo duvidosos) nas guerras napoleónicas e a dos morgados antigos, nas campanhas coloniais: "A minha opinião é que o neto dos almocreves tinha direitos muito mais legítimos à nobreza, porque matou franceses invasores da sua pátria, e não foi levar a assolaçao e a morte aos pobres indianos, que lá viviam tranquilos e inofensivos, nos seus palmares, com as suas crenças, com os seus haveres, e com a feliz ignorância".

Camilo Castelo Branco, Dois Santos Não Beatificados em Roma (novela), em Duas Horas de Leitura, 1857.

(Reparem como ele não consegue condenar completamente o racismo xenófobo e a violência imperialista).

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publicado às 19:09

Os radicais

por Luís Naves, em 27.08.17

Muito do que lemos na Imprensa reflecte o crescente conflito em torno da criação de uma nova identidade nacional desenraizada, repleta de culpa do homem branco, de leituras alternativas da História e de simplificações ideológicas alheias à vivência normal das pessoas comuns. Após a queda do Muro de Berlim, a esquerda entrou em crise, fragmentou-se, e a sua franja mais radical começou a negar a própria herança. Após lutar durante décadas contra as discriminações a grupos maioritários, como trabalhadores ou mulheres, a esquerda abandonou o passado e adoptou novas lutas ligadas a questões de minorias. Os movimentos que saíram desta fragmentação começaram a olhar para a sociedade como uma manta de retalhos de pequenos grupos, tentando federar o maior número possível numa agenda política que procura acomodar os problemas de cada um e de todos ao mesmo tempo. Esta abordagem precisa por outro lado de combater e até de negar tudo aquilo que possa parecer maioritário: contesta-se a religião da maioria, os grandes partidos e empresas, a língua (onde houver mais que uma), todos os costumes enraizados, incluindo o casamento tradicional, a ideia da nação e os respectivos símbolos. Terá isto futuro? É possível, mas para já está a criar forte reacção dos conservadores radicais, que começam a defender cada pedaço de território ameaçado como se fosse o último. Uns querem substituir tudo e criar o homem novo, os outros não admitem mexer uma vírgula, como se a identidade fosse algo imutável. E, no meio disto tudo, está um público perplexo, por vezes divertido, a assistir a gritarias ridículas sobre assuntos que, do seu ponto de vista, são de lana-caprina e do mundo irreal.

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publicado às 19:19

No bairro judeu

por Luís Naves, em 21.08.17

Depois de uma larga avenida, estende-se por vários quarteirões o bairro onde viviam os judeus e onde está a Sinagoga, o grande edifício em fase final de renovação e que será em breve uma atracção turística internacional. As ruas, com as suas filas de álamos, formam um rendilhado de casinhas baixas e pequenos palácios em trabalhos de reabilitação. Imagino que ali viviam muitas das famílias exterminadas no Holocausto. Sete mil pessoas, só em Szeged. Restam agora as casas silenciosas, com fachadas simples, onde a vida prosseguiu com outra gente. Em certos pontos também há traços da ditadura seguinte, um prédio proletário com baixo-relevo de operários, mas hoje o bairro está tranquilo, como se nada tivesse ali acontecido e nos fosse possível ignorar os sinais das sombras sem sentirmos leves ondas de angústia, no meio de toda a serenidade.

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publicado às 23:46

Os paraísos celestiais

por Luís Naves, em 18.08.17

Vi as notícias nacionais e pareceu-me que a realidade portuguesa é basicamente irreal. O que vemos não coincide com o que pensávamos que existia, o que somos não é exactamente o que julgávamos ser e a nossa memória não foi inteiramente vivida. Há uma crescente mistura entre real e irreal, entre o autêntico e o ficcionado, e foi isso o que li hoje na imprensa, a bolha jornalística dentro da bolha política das classes iluminadas, o lirismo utópico, o país que não se enxerga, as freiras beatas a darem lições de moral à saída da missa onde se falou exclusivamente dos paraísos celestiais.

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publicado às 23:42


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