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Os mandarins

por Luís Naves, em 17.08.16

Não há muita paciência para o vazio do mandarinato intelectual e para o vazio da linguagem politicamente correcta. Os analistas exigem à oposição que apareça com ideias frescas, leia-se pensamento mágico, discurso da esperança, nada de pessimismo, muitos afectos e beijinhos, abraços a vítimas e a populares mais vulneráveis, resistência à Europa e frases de belo efeito. Estes são os mesmos intelectuais que nunca acertaram e que, diga-se de passagem, estarão na linha da frente das críticas ao Governo Socialista, logo que percebam que vem aí o diabo e o reviralho. Dirão todos em coro que, afinal, o homem não percebia nada disto. A geringonça? Será considerada uma péssima ideia, que serviu apenas para a esquerda radical cortar uma boa fatia ao eleitorado do PS.

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publicado às 12:21

Política portuguesa

por Luís Naves, em 16.08.16

Na democracia portuguesa nunca existiu um governo minoritário estável, pormenor esquecido em todas as análises políticas. Os comentadores tendem a subestimar a conjuntura económica: a calamidade social do desemprego desapareceu por inteiro dos radares jornalísticos; a pobreza e as desigualdades deixaram de ser temas de análise. O fraco crescimento impede a recuperação da banca e ameaça a receita de impostos, há pressões da Europa no sentido de Portugal fazer as reformas que garantam orçamentos equilibrados e o pagamento da dívida pública, mas ouvimos cada vez mais o argumento da esquerda de que é preciso sair do euro ou renegociar a dívida, única maneira de manter a despesa a crescer mais depressa do que a economia. A solução política temporária é instável pela sua natureza, mas será insustentável se o Governo for forçado a aceitar medidas de estabilização financeira e orçamental que a esquerda não parece disposta a tolerar: cortes na despesa, reformas estruturais, dinheiro dos contribuintes para salvar a banca. Enfim, toda a gente percebe o acumular de nuvens no horizonte, mas a política portuguesa tem esta maravilhosa capacidade de discutir apenas assuntos acessórios, de usar o eufemismo e a elipse.     

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publicado às 12:12

Dois anos?

por Luís Naves, em 15.08.16

O Governo minoritário do PS vai durar dois anos? Pela amostra dos primeiros oito meses, não parece. A economia cresce a metade do ritmo previsto, mas acredita-se numa execução orçamental espectacular. Os parceiros europeus vão fiscalizar as contas de três em três meses e mantêm ameaças de sanções e cortes de fundos, mas a malta da esperança acha que podemos confiar numa negociação exemplar. A dívida pública cresceu em vez de diminuir, o Governo recusa aplicar medidas adicionais pedidas por Bruxelas, mas há esperança de que o toureiro evitará com habilidade a investida do touro. As taxas de juro negativas atingem já os bancos alemães, mas espera-se que as políticas do BCE continuem eternamente. Está tudo a correr bem, como acontece com o peru antes do Natal: comida abundante, donos contentes, o peso aumenta, o que poderá correr mal?

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publicado às 12:19

A morte do romance burguês

por Luís Naves, em 14.08.16

Nos romances burgueses do século XX era frequente surgir um tom convencional de boas famílias e de uma existência segura. Nestes livros, as personagens masculinas são geralmente fortes e confiantes, as mulheres nunca conseguem ser ridículas, são sempre enigmáticas, etéreas, mas nunca palermas; os homens dizem coisas profundas, jamais com sentido de humor; elas são trágicas e belas, desprovidas de grandes ideias, mas sem qualquer defeito da verdadeira humanidade, nem sequer uma pestana torta. As mulheres dos romances da época têm outra característica: generosa tendência para a devassidão moral. A burguesia do século XXI é muito diferente, confunde-se com a classe trabalhadora e foi proletarizada. As mulheres emanciparam-se, mas são infelizes e solitárias. Os homens têm angústias profundas e vivem existências sem sentido. O romance burguês está morto, pois já não há personagens em casamentos convencionais, com empregos rotineiros e situação financeira estabilizada, já não há pequenos empresários nem pequenas ambições, já não há pequenos adultérios nem pequenos sonhos burgueses.. 

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publicado às 12:25

Mocidade, de Joseph Conrad

por Luís Naves, em 13.08.16

Muitos exemplos de grande literatura são textos curtos sobre temas simples, mas que escondem uma profunda complexidade. É o caso deste conto de Joseph Conrad. Mocidade terá sido um esboço para a obra-prima do autor britânico de origem polaca, O Coração das Trevas, publicado um ano depois, em 1899. O narrador é o mesmo nos dois textos, Marlow, também o narrador de Lord Jim. O escritor usa no conto e na novela o mesmo esquema narrativo, de alguém que conta uma história antiga aos amigos. Mocidade é uma história de homens fracassados, que executam com valentia uma viagem cheia de obstáculos. O texto está repleto de pequenas observações certeiras sobre as personagens, por exemplo, “um homem que tivera, tinha ou esperava ter desgostos”, e descreve em tom nostálgico os perigos que mudam uma vida. Conrad fez aos 21 anos uma viagem parecida com a que descreve, num velho navio fustigado por tempestades, vítima da combustão espontânea da sua carga de carvão, incluindo a explosão quase catastrófica e a propagação imparável do incêndio, culminando no abandono do navio perdido.

Num plano mais simbólico, há neste texto uma metáfora do mal que nos acompanha, que se esconde no porão da sociedade e cuja superação é o verdadeiro triunfo. É pelo menos assim que Marlow olha para aquele episódio: “Para mim era o esforço, a prova, o julgamento da vida” o mais importante, ou, como escreve mais à frente, “a convicção triunfante de termos força, o calor da vida numa mão cheia de pó, aquela chama do coração que ano após ano esmorece, esfria, encolhe até se apagar de todo...e se apaga cedo, muito cedo... antes da própria vida”. Em Mocidade, temos a prova da vida, a superação da juventude, o combate contra o fogo escondido que arde no interior do navio condenado. Os homens revelam-se na adversidade, na coragem sem glória, na suave crença do humano, nas marcas do tempo que vão apagando a chama do coração.

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publicado às 12:35

O justo vencedor

por Luís Naves, em 12.08.16

O nadador norte-americano Michael Phelps será o grande herói dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, após ter batido um recorde com mais de 2100 anos. Ao ganhar a sua 13ª medalha de ouro individual, Phelps ultrapassou o anterior recorde de vitórias, que pertencia a um grego chamado Leonidas de Rodes, que venceu 12 competições em quatro olimpíadas clássicas. Leonidas, evidentemente, não ganhou medalhas de ouro, mas ramos de oliveira. Para além deste momento histórico, os jogos do Rio estão a ser marcados pelas primeiras críticas públicas de atletas limpos aos batoteiros que usam drogas para melhorar as suas capacidades físicas. O movimento olímpico só poderá sobreviver se conseguir identificar e expulsar todos os ladrões de medalhas. É uma tarefa difícil, devido à politização do desporto, uma das causas do desaparecimento da tradição grega dos jogos antigos. Em 67 d. C, numa altura em que os jogos já estavam em decadência, o imperador Nero fez uma visita à Grécia e cumpriu o seu sonho de competir nos jogos olímpicos. Nero adorava corridas de carros de cavalos e tentou bater todos os recordes com uma viatura de dez cavalos, um Ferrari do seu tempo, muito instável e perigoso. O imperador romano saiu da linha de partida a uma velocidade louca e estampou-se logo na primeira curva, sendo projectado do carro. Ficou bastante maltratado (há teorias de que bateu com a cabeça e enlouqueceu neste episódio), mas apesar de não ter concluído a corrida, Nero foi mesmo assim declarado vencedor. Venceria dezenas de competições, incluindo a que não terminou.

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publicado às 12:45

Biblioteca do Neversink

por Luís Naves, em 09.08.16

À colecção de uma editora americana foi dado o nome de ‘Biblioteca do Neversink’, referência extraída de Herman Melville, sobre a biblioteca de um navio de ficção. A ideia é a seguinte: os livros mais agradáveis que lemos são geralmente os que encontramos por acaso. Li vários livros desses, brilhantes, esquecidos, menos famosos do que tantos outros, mas igualmente fascinantes. Encontrei por acaso um romance em que penso muitas vezes, Apepe, de Ferenc Karinthy, que não existe em português, mas podia citar outros: Coming Up for Air, de George Orwell, que julgo não estar editado em Portugal; Enviado Especial, de Evelyn Waugh, uma divertidíssima sátira sobre jornalismo; ou ainda Jogo da Cabra Cega, de José Régio, obra-prima infelizmente esquecida e que também encontrei por acidente.

A minha biblioteca do Neversink tem volumes de Laszlo Krasznahorkai, Dino Buzzati, Joseph Roth, Raul Brandão, Paul Bowles, Vergílio Ferreira, Romulo Gallegos, tem um Dostoievsky dos menos citados, ganhou agora este Definitely Maybe, a história de um cientista soviético que, à beira de uma grande descoberta, e por qualquer razão misteriosa, é interrompido por toda a espécie de peripécias parvas, ruídos insistentes e personagens ambíguas.

Os dois autores são famosos na ficção científica, mas esta sua obra supera o género. Os irmãos Strugatsky usam todos os mecanismos populares, com referências de cultura e diálogos de qualidade acima da média. O ritmo e o suspense obrigam a continuar a leitura, encontramos personagens cómicas e cínicas, subtis críticas políticas e também é usado o mecanismo das histórias de espionagem, com pistas falsas e cambalhotas lógicas que enganam o leitor à maneira do grande John Le Carré, que é expressamente citado.

Em Portugal, o livro foi publicado nos anos 90, com título Até ao Fim do Mundo, numa colecção de ficção científica da Europa-América. Teve, por isso, dificuldade em encontrar os seus leitores. Para os fanáticos do género, será demasiado intelectual e de alguma forma decepcionante, pois dispensa os lugares-comuns habituais da ficção científica, que geralmente é uma forma de fantasia onde a realidade está cuidadosamente disfarçada. Para quem não aprecia este tipo de literatura, Até ao Fim do Mundo tem tudo: inteligência, ideias, modernidade, simplicidade na estrutura e no estilo, com o brinde inesperado de colocar um sorriso permanente na cara do leitor agradecido. O romance é também um bocadinho mais subversivo do que parece. Questiona o domínio do politicamente correcto, especula em torno do tema das conspirações, dos poderes ocultos e do respectivo controlo do pensamento. Coloca o problema da resistência fútil e explica como a desistência pode ser uma tentação. Estará mesmo uma super-civilização a interferir no desenvolvimento científico da humanidade? Tudo indica que sim, mas nas certezas convém colocar um talvez. O facto é que se tornou difícil pensar: somos constantemente interrompidos por minúsculas preocupações da vida contemporânea. Este livro, escrito numa sociedade onde havia o peso do sistema político totalitário, é hoje compreensível para todos os contemporâneos da pouco poética era da internet e dos telemóveis.

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publicado às 09:37

Fado crónico

por Luís Naves, em 07.08.16

Portugal tem vivido em sucessivos ciclos de expansão da despesa até ao estoiro, geralmente liderados pelos socialistas, com uma segunda fase de contracção sem reformas, sob condução da direita. A sustentabilidade das contas públicas tem sido o problema dos últimos quinze anos e deverá manter-se mais uma década: foi acumulada uma dívida brutal e, sem crescimento, o país não poderá suportar indefinidamente o peso dessa dívida; o crescimento depende em parte de reformas difíceis que permitam equilibrar os orçamentos. Os economistas andam a dizer isto desde o século passado e os políticos sabem que o problema nacional tem a ver com o excesso de despesa, mas o facto é que Portugal só muda por imposição externa. É o que acontecerá de novo. A geringonça não será mais do que um breve período de expansão orçamental e de aumento de impostos que vai rebentar um pouco à frente. O contexto do euro tornou o problema crónico mais difícil de gerir e os partidos parecem incapazes de organizar uma resposta que torne o país viável. A fragilidade do sistema partidário gera a paralisia institucional. Falta de coragem política para mudar a situação. Os partidos vivem da criação de intrigas artificiais e as discussões paupérrimas são de natureza ideológica, evitando-se sempre abordar a questão central. Os meios de comunicação tornaram-se cúmplices desta impossibilidade de fazer reformas e têm horror à ideia de renovação da classe política, pois alimentam algumas das personagens que criaram o próprio sistema em que vivemos: as televisões estão repletas de comentadores que nunca foram além de carreiras políticas medíocres. Falam como se tivessem sido grandes estadistas.

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publicado às 17:14

E se as noivas saírem todas ao mesmo tempo?

por Luís Naves, em 04.08.16

Parece cada vez mais provável que a geringonça se rompa por um motivo exterior. O deslize orçamental ameaça as taxas de juro da dívida e pode resultar em exigências de Bruxelas de cortes na despesa, que seriam intoleráveis para os partidos da esquerda. O Governo continua a dizer que não cumprirá a recomendação da comissão feita na semana anterior, de aplicar medidas adicionais, fingindo ignorar que existe uma ameaça de suspensão dos fundos comunitários em 2017. Provavelmente, os socialistas não contam estar no Governo nessa altura. Para os comentadores políticos, o acordo entre os quatro partidos está sólido e quem romper perde imensos votos. A explicação, segundo estas versões: as sondagens indicam que o povo quer estabilidade e a penalização será dura para quem protagonizar a ruptura. Talvez tenham razão, mas as sondagens indicam a tendência de voto neste momento e só haverá eleições se o Governo cair ou no fim da legislatura, este último um cenário improvável. As sondagens serão muito diferentes após a queda, portanto, estamos a elaborar cenários sobre situações que ainda não existem. Convinha olhar para as sondagens de outra forma: nenhum dos partidos tem um motivo forte para derrubar o Governo. A situação muda quando chegar a factura dos erros anteriores, por exemplo um pacote de cortes na despesa imposto de fora. Para a esquerda do PS, será então difícil manter o acordo que suporta o Governo. Se todas as noivas saírem ao mesmo tempo, a compreensão dos convidados irá apenas para elas; quem fica ridículo é o noivo deixado no altar.

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publicado às 09:45

Intervalo de Agosto

por Luís Naves, em 01.08.16

O país seguiu para férias e, como se toda a gente ouvisse um sinal sonoro, desapareceram de repente os problemas. Tirando os incêndios, que infelizmente fazem parte da paisagem de Verão, chega agora o tempo das histórias positivas: famosos a banhos, políticos descontraídos, dinheiro a rodos, abundantes trabalhos sazonais e festas de ricos. Subitamente, anda toda a gente feliz e a esquerda radical já não critica como antigamente. Os desempregados desapareceram e nenhum jovem se viu forçado a emigrar. As redes sociais descansam umas semanas e não sentiremos o seu veneno. No intervalo de Agosto percebe-se melhor como o debate político é uma repetição de mais do mesmo, com um toques de treta.

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publicado às 17:10


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