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Incógnitas francesas

por Luís Naves, em 06.03.17

A situação complica-se em França. O candidato republicano François Fillon continua em queda nas sondagens e parece mais longe de passar à segunda volta, quase garantindo que na corrida final estarão Marine Le Pen e Emmanuel Macron: a primeira é uma populista de extrema-direita, o segundo um político jovem e nunca antes testado, cuja maior glória é uma lei laboral que grande parte da esquerda contestou. A eventual vitória de Le Pen será o fim da União Europeia tal como a conhecemos; se Macron vencer, será preciso que ganhe também as legislativas de Junho, algo difícil para quem não dispõe de máquina partidária. Não estou a ver os eleitores comunistas ou da esquerda radical a votarem facilmente num candidato com discurso neoliberal puro e muita retórica à maneira de Obama, apoiado pelas elites financeiras do país e pelos meios de comunicação tradicionais. Le Pen não precisa de ser eleita para o Eliseu, basta-lhe ter mais de 40% na segunda volta para fazer tremer todo o sistema: depois, a líder da Frente Nacional tentará segurar esta votação para as legislativas, sabendo que dificilmente Macron terá o mesmo êxito, pois muitos dos seus eleitores votarão em candidatos republicanos ou socialistas, em muitos dos combates a três nos círculos uninominais. A partir de certo patamar, os cordões sanitários já não funcionam.

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publicado às 15:40

Europa, Europa

por Luís Naves, em 04.03.17

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, publicou esta semana um documento de reflexão sobre o futuro da Europa a 27, o chamado Livro Branco, que pretende balizar a discussão sobre o formato da UE em 2025. Tem cinco cenários de futuro: continuidade; recuo para o mercado único; Europa a várias velocidades; reforço da integração num núcleo central de problemas; e fuga para uma organização federal, prevendo, entre outras inovações, a união europeia de defesa, expansão significativa do orçamento comunitário e coordenação em questões sociais.

O que se pode criticar no documento não é a definição de cinco cenários, mas o que a Comissão decidiu escrever sobre cada um deles. Leia-se com atenção o texto, sobretudo a tabela da página 29, e percebemos com clareza o que Bruxelas pretende defender, ou seja, o cenário cinco, o que lhe dá mais poder, de onde se recuará para o quatro, e deste para o três, se for impossível convencer a opinião pública.

Na hipótese federal, com título inócuo de ‘fazer muito mais todos juntos’, é tudo fantástico ou, na pior das hipóteses, idêntico ao cenário 4, à excepção da capacidade de realização, que é afinal uma função da vontade política. Se caminhar para o cenário 5 ou 4, a UE fará acordos comerciais em nome dos 27 e normas europeias para políticas onde estas ainda não existem (energia, trabalho, serviços); haverá uma agência para gerir os pedidos de asilo e um fundo monetário europeu controlado pelo parlamento europeu; a união económica e monetária será concluída (acabando de vez com a autonomia orçamental dos países), o orçamento será reforçado; enfim, teremos uma só voz na política externa, guardas de fronteira europeus, até talvez defesa comum.

Não sei em que bolha habitam estes políticos, mas não devem estar atentos às eleições francesas. Considerando as sondagens sobre a primeira volta, 40% do eleitorado prepara-se para votar em candidatos (Le Pen e Mélenchon) que defendem a saída do euro; na Holanda, a proporção não é muito inferior.

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publicado às 18:54

Excerto de um texto

por Luís Naves, em 02.03.17

(...)


Vivemos numa época em que é cada vez mais difícil interpretar a realidade. O poder está fragmentado, as sociedades perderam coesão cultural; já não aceitamos de forma complacente todos os pontos de vista dos nossos intelectuais, das elites e dos meios de comunicação. Hoje fala-se em fake news, notícias falsas, mas a questão não é nova. A manipulação da verdade é uma circunstância do mundo contemporâneo que existiu em outras épocas. Podemos distorcer o que contamos, exagerar, omitir. É possível alterar a percepção que as pessoas têm dos conflitos, manipulando as emoções. O ponto de vista nunca foi inocente. Mas os leitores de hoje, ao contrário do que acontecia no passado, desconfiam das notícias que lhes chegam pelos canais tradicionais. Os meios de comunicação atravessam uma crise de credibilidade; está a ser contestado o cartel dos mediadores que interpretam a realidade: as fontes de informação são múltiplas e produz-se uma quantidade imensa de notícias e de opiniões. Os leitores contemporâneos tendem a rejeitar todos os meios de comunicação que não alinhem na sua definição de verdade. É como se vivêssemos nas bolhas de uma garrafa de champanhe, que coexistem separadas. Só aceitamos discussões onde se diz aquilo que queremos ouvir. As próprias palavras já não significam o mesmo em cada um dos lados da barricada. Este debate é paradoxal: não conheço ninguém que não procure informar-se melhor. No mundo em que habitamos, nunca houve tal proporção de indivíduos cultos; pode parecer contraditório com o que disse antes, mas hoje é impossível esconder uma informação essencial; sabe-se tudo; a opinião pública reage de imediato a qualquer abuso de poder e o eleitorado penaliza qualquer governante que cometa erros demasiado grosseiros. Como é que se manipula neste contexto? Escondendo a informação sensível numa montanha de abundância. Não é preciso censura, existe apenas uma autêntica enxurrada de factos, o que torna difícil a selecção daquilo que possa ser relevante. Este contexto parece ser ideal para operações de manipulação. Estamos porventura a assistir a esse fenómeno em várias notícias da actualidade. Em França, por exemplo, o candidato François Fillon estaria em excelentes condições para vencer as presidenciais se não tivesse aparecido uma notícia num momento cirúrgico. Ela é verdadeira, muito embaraçosa, mas por que razão surgiu exactamente agora, em vez de aparecer quando ele era primeiro-ministro ou nas primárias dos republicanos? Escândalos em vésperas de eleições? Temos de desconfiar, naturalmente.

(...)

Excerto de um texto lido na apresentação do livro Manipulação da Verdade, de Eric Frattini, editado pela Bertrand.

Fiquei também a conhecer o autor, uma pessoa fascinante. 

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publicado às 18:48

Enfrentar os índios

por Luís Naves, em 22.02.17

Não é fácil entender o mundo contemporâneo e a vaga de mudança política nos países mais ricos do mundo sem considerar que há duas ideias incompatíveis em confronto. Um dos lados da barricada pensa que a civilização ocidental é um fracasso e deve reconhecer os seus erros históricos e mudar de práticas; a outra olha para os conflitos mundiais como parte de um choque de civilizações, onde culturas bárbaras ameaçam suplantar as avançadas. No fundo, ambos pensam que não existe lei do progresso e ambos consideram que somos testemunhas de um declínio da modernidade. A esquerda acredita que o cristianismo é totalitário e que o capitalismo leva os países para a escravatura e o império. A direita acredita que o Ocidente se encontra em perigo iminente e defende o reforço da identidade como única saída para travar os processos de decadência. A fronteira é o primeiro campo de batalha desta guerra de culturas, pois define o espaço em que as pessoas se incluem. É por isso que as migrações são o grande tema das campanhas políticas, pois tocam no nervo das opções da sociedade. Os argumentos mais acesos, por exemplo, sobre as decisões da nova administração americana ou nas campanhas eleitorais europeias em 2017 e 2018, giram em torno do choque de civilizações ou da culpa do Ocidente e têm geralmente relação directa com a questão da identidade. As elites discordam dos seus compatriotas descontentes, os meios de comunicação recusam-se discutir o tema, as nações resistem, a globalização está a mudar de forma, reduzindo-se entre espaços que se consideram distintos, acelerando nos territórios que se reconhecem da mesma ordem. A parte mais irónica é que a ideia da dissolução do Ocidente criou uma resposta que nos conduz a futuros mecanismos de alianças de civilizações. Lembram-se do livro de Samuel Huntington que popularizou a noção de ‘choque de civilizações‘? É curioso, mas está lá tudo, os problemas de identidade, as migrações, as prováveis alianças, a ameaça do extremismo islâmico, o Ocidente no auge do seu poder e a enfrentar os índios.

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publicado às 19:17

Guerra de culturas

por Luís Naves, em 08.02.17

Desapareceu o confronto tradicional da política. Aquilo a que assistimos é um sismo na ordem global, sob a forma de guerra de culturas. A luta tem crescente violência a alastra a novos domínios da vida quotidiana. Os dois exércitos falam uma língua diferente e são irreconciliáveis. estão a conquistar todo o debate. Um dos lados diz que foi atraiçoado pelas elites, pelos dirigentes que não disseram a verdade, pelos banqueiros cínicos e pelos intelectuais acomodados. Estas pessoas não estão apenas desiludidas, mas enraivecidas: querem as suas vidas de volta, a segurança que tinham, as fábricas onde trabalhavam (agora, na melhor das hipóteses, andam a virar rodelas de carne moída); querem sair do empobrecimento e da precariedade em que caíram, querem que não vençam sempre os mesmos. Este grupo está convergir em protestos que mais parecem rupturas, contestando as migrações em massa, a insegurança crónica. Julgam estar a viver no declínio, numa sociedade em perda de memória, com sinais de senilidade. Por isso, procuram a mudança; para eles, está em perigo a preservação da identidade e ficam estupefactos quando o outro lado não consegue ver isso. Querem a pátria de volta e respeito pelas tradições; recusam os políticos do diálogo e do consenso; desprezam burocratas não eleitos e desconfiam das organizações não eleitas. Este exército de protesto enfrenta um grupo heterogéneo, dominante nas classes triunfantes da nova economia, nos debates televisivos, nas discussões académicas e até na arte contemporânea. Este segundo grupo, o que está instalado no poder, tem muitas opiniões, mas defende genericamente que a sociedade se caracteriza pela mestiçagem de ideias e que a diferença que vem de fora deve ser integrada com extrema tolerância, o que não se pode dizer sobre o pensamento antigo; esse, sendo fonte do mal, deve ser rejeitado.

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publicado às 19:19

Interpretação cansativa

por Luís Naves, em 25.01.17

Está a tornar-se cansativa a interpretação que olha para as democracias contemporâneas como tendo dois tipos de eleitores: os que sabem pensar e votam bem; e os misóginos, reaccionários, estúpidos, racistas, xenófobos e genericamente brancos pouco qualificados cujo voto não devia contar. Nunca vi tantas pessoas de esquerda escandalizadas com os ataques ao livre comércio e à globalização. O novo presidente americano, condenado por cumprir o que prometeu, é geralmente descrito como não tendo credibilidade, legitimidade, popularidade ou sequer qualquer género de humanidade. Vladimir Putin, o czar da Rússia, parece que venceu as eleições na América, depois de ter vencido o Brexit, mas também se prepara para ganhar as eleições na Holanda, em França e talvez na Itália, usando fantoches e a desinformação da poderosa estação de televisão RT, capaz de enganar eleitores notoriamente estúpidos. Esta história da carochinha é defendida pelos mesmos que se indignam com os ataques de Trump aos espiões da CIA, agora denominados ‘comunidade de inteligência’.

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publicado às 19:26

O mérito é o movimento

por Luís Naves, em 08.01.17

Nos Cadernos de Albert Camus há uma frase sobre literatura cuja ideia (ou o que interpreto da ideia) não me sai da cabeça: “O escritor só é comprometido quando quer. O seu mérito é o movimento”. A frase surge numa entrada destes cadernos que julgo ser uma reflexão sobre a intervenção política dos escritores. Será isso um dever ou, pelo contrário, um equívoco? Camus não nos dá uma resposta clara, nem sequer algumas pistas. A explicação estava certamente na cabeça dele.

Os Cadernos reúnem reflexões não destinadas a publicação, com pequenas anotações sobre o trabalho do romancista, sobre os ensaios filosóficos, incluindo entradas com observações da realidade que poderiam ser mais tarde utilizadas em artigos ou obras de ficção. Não é um diário, mas a pequena oficina do autor, para registo das suas ideias. “O escritor só é comprometido quando quer”. Parece evidente, isto vem de uma frase anterior: “Gosto mais dos homens que tomam partido do que das literaturas que tomam partido”. Enfim, parece óbvio, as escolhas políticas do escritor partem da sua consciência e são matéria exclusiva de escolhas individuais.

A segunda frase é o bom enigma: “o seu mérito é o movimento”. Será que significa ‘o que o escritor faz melhor é criar movimento’? Sendo essa a interpretação correcta, julgo que é uma óptima definição de literatura, porque se o texto não se move na imaginação do leitor, estará inanimado. Ou regressando a uma frase mais antiga dos Cadernos: “Os maus escritores: aqueles que escrevem de acordo com um contexto interior que o leitor desconhece”.

O que será então a má escrita? A que não consegue produzir movimento na mente do leitor.

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publicado às 15:51

Algumas reflexões

por Luís Naves, em 06.01.17

Não há escritas inocentes. É um fracasso não conseguir abordar temas tabu. Nenhum escritor está fora do seu tempo, excepto quando imita outro. É uma ilusão julgar que o passado tem mais acontecimentos do que o presente.

Estas são algumas ideias de George Orwell, que fui reunindo, de forma avulsa e sem aspas, da leitura dos seus ensaios. Usei palavras minhas, mas as ideias são dele. Dito de outra forma: toda a escrita é política; o verdadeiro fracasso do escritor é não ter a coragem para falar do que lhe parece ser essencial; nenhuma prosa sincera está fora do seu tempo; conhecemos melhor o presente e devemos escrever sobre aquilo que conhecemos.

Adiciono a estas reflexões uma curta definição de Giacomo Casanova, esse grande escritor europeu, a justificar a escrita das suas memórias: “Digna ou indigna, a minha vida é a minha matéria; a minha matéria é a minha vida”. E, já agora, a primeira anotação de Albert Camus para O Estrangeiro, incluída nos Cadernos. O mecanismo inicial do romance, a faísca, não é mais do que esta frase curta: “Até que ponto foi estranho à sua vida”.

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publicado às 15:47

A revolta da classe operária

por Luís Naves, em 14.12.16

Nas votações onde houve revolta eleitoral os analistas notaram o seguinte padrão: os populistas tinham proporção elevada do eleitorado branco, masculino e de baixas qualificações. Nunca vi isto escrito de outra forma, mas a definição ‘branco de baixas qualificações’ lembra um eufemismo para ‘classe operária’ e, sendo assim, mudaram as tradicionais clivagens entre esquerda e direita. Ao levar o debate político para temas de identidade e fragmentação social, a esquerda perdeu o seu bastião, que evidentemente já não será operário, mas precário, tentando desenrascar-se na adaptação a pequenos serviços e estando nas tintas para a rigidez sindical ou para a linguagem beata que domina os meios de comunicação. A traição dos partidos tradicionais também ocorreu à direita. Os conservadores abandonaram os seus temas favoritos, de pátria, ordem e soberania, a favor da promoção de uma globalização que trouxe benefícios para o capital e prejuízos para os trabalhadores. A extrema-direita apropriou-se dos temas conservadores e, pelo menos em França e Áustria, apropriou-se também do voto operário.

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publicado às 12:51

Não correram rios de tinta?

por Luís Naves, em 13.12.16

Não correram rios de tinta sobre a fraqueza das direcções políticas? Hoje, na opinião publicada, é mais comum encontrarmos o horror ao homem-forte e a tese da estupidez do eleitor contemporâneo, formas úteis de evitar debater o fenómeno da rebelião eleitoral e de impedir a crítica aos poderes instalados. As elites que falharam em tudo na última década querem agora convencer-nos de que devem ser elas a conduzir o processo de renovação. E os comentadores acham que não é preciso mudar nada no sistema. Mas como era possível que a grande crise não desse origem a uma transformação na política? Muitos eleitores sentem que perderam o controlo sobre as suas vidas. Já não existe segurança no emprego e as novas gerações vivem pior do que as anteriores (pagam mais impostos, têm menos direitos, pensões em dúvida, rendas altas, precariedade). Os países estão endividados e as economias crescem a passo de tartaruga. Ocorre igualmente uma desindustrialização generalizada e os países de dimensão média tornaram-se irrelevantes. A isto acresce a ansiedade tecnológica, já que a nova economia é apenas para alguns felizardos.

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publicado às 12:53


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